No trimestre final do ano passado, a parcela dos rendimentos das famílias dedicada ao pagamento de juros e amortização de seus débitos bancários superou os 29%, na média, cifra inédita em 20 anos. É notável que o peso do endividamento nos orçamentos domésticos tenha crescido em anos como os recentes, de alto crescimento da massa de salários.
O nível de endividamento em si mesmo não é necessariamente indício de problemas. O aumento da proporção dos empréstimos em relação ao tamanho da economia, do PIB, pode ser um sinal de democratização do crédito, acesso ao financiamento de bens mais caros e mesmo de atividade empreendedora.
O aumento do custo do serviço da dívida, no entanto, pode ser sintoma de deficiências.
No Brasil, é necessária mais cautela, dado o nível das taxas de juros, insuportavelmente elevado por problemas estruturais, como baixa taxa de poupança nacional, insegurança jurídica e irresponsabilidade fiscal —hoje em grau particularmente elevado sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Além do mais, os ciclos econômicos, de intensidade e frequência exageradas no país, deterioram também a qualidade do crédito e a condição financeira de famílias e empresas. O caso recente de aumento do custo do serviço da dívida é outro exemplo de reflexo de um ciclo em parte insustentável, pois artificial, de crescimento de curto prazo.
Em 2024 já apareciam sinais de economia aquecida em excesso. De resto, o real passava por outra onda de desvalorização, em parte devida à percepção de piora fiscal e ao afrouxamento das metas oficiais de ajuste.
O Banco Central havia reduzido sua taxa, a Selic, de 13,75% anuais, a partir de agosto de 2023, para 10,5%, em maio de 2024. Em setembro daquele ano, o BC teve de voltar a elevar os juros.
O custo do crédito bancário livre para pessoas físicas passou a subir. O peso da amortização em relação aos rendimentos familiares ficou maior. Ao longo de 2025, subiu a inadimplência —alguns analistas sugerem a hipótese de que isso também tenha sido causado pela inexperiência da população recentemente bancarizada em lidar com o crédito.
O aumento do peso do serviço da dívida deveu-se na maior parte aos juros nas alturas, indicam as estatísticas do Banco Central. Além do mais, em relação à renda total das famílias, o aumento relativo do serviço foi maior do que o do endividamento.
A inadimplência talvez venha a cair nos próximos meses, com as renegociações de dívidas bancárias. Se a guerra entre os EUA e o Irã não o impedir, as taxas de juros devem cair, assim como o peso do endividamento, se não houver desaceleração maior no mercado de trabalho.
Variações cíclicas são comuns em qualquer economia. No Brasil, as flutuações são mais intensas e frequentes. Reformas e cuidados macroeconômicos rudimentares atenuariam tais ciclos.
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