Home » Despejo de teatro gera conflito entre MinC e PMSP – 24/03/2026 – Mise-en-scène

Despejo de teatro gera conflito entre MinC e PMSP – 24/03/2026 – Mise-en-scène

by Silas Câmara

A Cia. Mungunzá de Teatro está em movimento. Enquanto o cenário de sua sede histórica, o Teatro de Contêiner, era reduzido a escombros no último fim de semana por uma ação da Prefeitura de São Paulo, o coletivo organizava a ocupação de um novo território: o Complexo Cultural Funarte, no centro da capital. O despejo, ocorrido justamente às vésperas do Dia Mundial do Teatro, gerou uma nota de repúdio conjunta entre o Ministério da Cultura e a Funarte, evidenciando o conflito entre as esferas municipal e federal sobre a gestão da cultura na região central.

A temporada que se inicia em abril não é apenas um ciclo de apresentações. É um ato de sobrevivência e uma declaração de que o trabalho artístico e social do grupo possui uma estrutura que a demolição física não alcança. Entre abril e maio, o grupo apresenta três espetáculos que sintetizam duas décadas de pesquisa e rigor estético, reafirmando o compromisso com a democratização do acesso à cultura por meio de uma programação totalmente gratuita.

Duas décadas de rigor e compromisso social

Formada majoritariamente por egressos da Escola de Teatro Macunaíma, a Cia. Mungunzá construiu, desde 2006, uma trajetória que une a excelência técnica à intervenção política no espaço urbano. A programação na Funarte ocorre em um momento de esgotamento físico e emocional da equipe, provocado pela perda de um espaço que funcionava, simultaneamente, como palco, centro de assistência e território de convívio para a população da Luz.

A abertura, no dia 4 de abril, ocorre com “anonimATO”. A obra foi concebida para ocupar as ruas e, neste contexto, ganha contornos de manifesto político. Com direção de Rogério Tarifa e dramaturgia de Verônica Gentilin, o espetáculo conduz o público por um cortejo de 100 metros, transformando a Funarte em palco para oito figuras anônimas: a Mãe, a Mulher-Árvore, a Vendedora de Sonhos, o Homem-Placa, o Pipoqueiro, o Trabalhador, o Homem que é “todo mundo” e a Mulher que é “ninguém”. São alegorias da precarização do trabalho e do apagamento imposto pela metrópole. A direção musical de Zimbher e as composições de Lucia Gayotto e Natália Nery estruturam a narrativa em uma partitura que guia atores e espectadores em uma experiência imersiva. Após o despejo, “anonimATO” torna-se um testemunho da persistência de um corpo artístico que se recusa ao silenciamento administrativo.

De 10 a 26 de abril, entra em cena “Luis Antonio-Gabriela”, um dos títulos mais emblemáticos do teatro brasileiro recente. Sob a direção de Nelson Baskerville, o “documentário cênico” narra a trajetória de Luis Antonio, que enfrentou o conservadorismo familiar e a repressão da ditadura militar para viver sua identidade como Gabriela na Espanha. É uma obra sobre coragem e os custos da liberdade — temas que convergem com a própria história de um grupo que construiu sua autonomia contra adversidades sistemáticas.

Encerrando a mostra, entre 8 e 24 de maio, o grupo apresenta “Elã”, com direção de Isabel Teixeira. O trabalho é uma derivação do “Livro de Linhas”, caderno artesanal que sistematiza a metodologia Escrita na Cena®, desenvolvida pelos próprios artistas ao longo de anos. A peça abandona a narrativa linear para construir uma teia de oito histórias sobrepostas, espelhando a fragmentação do fluxo contemporâneo de informações. É o trabalho mais recente do coletivo e chega à Funarte após uma recepção crítica que o aponta como uma das montagens mais inventivas do cenário atual.

O Teatro de Contêiner e o urbanismo tático

O Teatro de Contêiner, erguido em 2017 com módulos marítimos em um terreno anteriormente abandonado na Rua dos Gusmões, representou um exercício de urbanismo tático sem precedentes em São Paulo. Sem muros, a estrutura convidava a vizinhança para o convívio e alterava a dinâmica de uma região marcada pela vulnerabilidade social.

A atuação do Mungunzá extrapolava o palco. Durante a pandemia, o grupo distribuiu 500 refeições diárias para a população em situação de rua. O espaço abrigava o coletivo “Tem Sentimento”, focado na geração de renda para mulheres cis e trans da Luz, e mantinha o projeto “Birico”, que reunia mais de 30 artistas para sustentar uma escola gráfica com bolsas de estudo. A demolição interrompeu uma cadeia produtiva e de cuidado que as políticas assistenciais tradicionais do Estado frequentemente não conseguem operacionalizar.

O impasse institucional

Atualmente, a reconstrução da sede esbarra em entraves burocráticos. A Prefeitura de São Paulo ofereceu um novo terreno na Rua Helvétia, com área triplicada, mas sem garantia de estabilidade: a proposta municipal é de apenas dois anos de concessão, enquanto a companhia pleiteia 30 anos para viabilizar a continuidade dos projetos sociais e culturais de longo prazo. O custo estimado para a transferência da estrutura é de R$ 2 milhões, montante que o poder público municipal não se comprometeu a cobrir integralmente.

Enquanto o diálogo institucional com o município permanece travado, o Governo Federal, por meio da Superintendência do Patrimônio da União, busca terrenos na região central para abrigar a companhia de forma definitiva. A presença do Mungunzá na Funarte, um espaço público federal, é uma resposta política e artística a essa conjuntura. Se a infraestrutura física pode ser removida, o território simbólico e social construído desde 2006 permanece em plena atividade.

A programação gratuita está em cartaz de abril a maio. A resistência, em cartaz há 20 anos.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment