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Como Hannah Montana foi heroína para geração dos anos 2000 – 24/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Parecia um casamento sem chance de volta —levou anos para que uma sequer voltasse a falar da outra. Mas as mágoas, quaisquer que tenham restado, ficaram para trás, e Miley Cyrus reatou com Hannah Montana, parceira de adolescência que a apresentou a tudo o que conhece hoje e com quem construiu um relacionamento que, mesmo acabado, perdurou na memória de tantos.

A consumação dessa paixão renovada está em “Hannah Montana: Especial de 20º Aniversário”, lançado nesta terça-feira (24) no Disney+, motivo de frisson entre aqueles que tiveram na loira fictícia a sua primeira diva pop favorita.

No programa, Miley retorna à casa da personagem com a qual ficou famosa em 2006 e reencontra os signos —as perucas loiras, os instrumentos musicais, os figurinos extravagantes —que depois a ensinaram a se tornar, ela própria, uma diva pop tão autêntica.

“Eu costumava pensar em Hannah como algo separado de mim”, Miley disse nas gravações do programa. “Este especial é um jeito de me reapropriar da fusão entre Hannah e Miley.” À revista Variety, ela afirmou que, embora tenha se divorciado da personagem, e falado mal dessa época vez ou outra, sua intenção nunca fora matar Hannah.

“Criei uma persona chamada Miley Cyrus para me proteger e manter a pessoa que eu realmente sou atrás de portas fechadas. Mas fiquei mais velha e consegui misturar em um único ser o que amo em todas essas personas.”

Embora tenha se afastado de forma brusca de Hannah, na tentativa de se provar para além dela, Miley carrega até hoje traços da personagem. Hannah cantava, por exemplo, sobre querer ser roqueira em “Rock Star” —anos depois, Miley fez o disco de rock “Plastic Hearts”, numa manobra inusitada para a própria carreira, mas que acabou se tornando uma de suas obras mais bem avaliadas.

Por outro lado, Miley aprendeu com Hannah que detesta conforto e pagar de boa moça. Seu negócio é ser experimental, arriscada. O último disco que lançou, “Something Beautiful”, foi elogiado por tentar sons diferentes da leva mais recente de obras do pop.

Antes, ela tentou country, pop psicodélico e chocou o público mirim ao montar pelada em uma bola de demolição no clipe “Wrecking Ball”. Fez tudo isso para se distanciar da imagem de “Hannah Montana”, justamente a que tenta recuperar agora. Mais madura, viu que términos não precisam ser tão violentos assim.

Miley reencontrar Hannah desperta a nostalgia de tempos mais simples, em que era fácil rir das peripécias de uma garota estabanada que se torna poderosa ao vestir uma peruca. Havia fascínio na ideia de que alguém comum possa ganhar superpoderes com um disfarce tão banal —Hannah foi como uma espécie de Super-Homem ou Batman das garotas e dos gays.

A personagem encontrou apelo especialmente entre a comunidade LGBTQIA+, à época muito mais escondida que hoje. Muitos vão aos shows de Miley com camisetas que dizem que foi graças a Hannah que eles entenderam sua sexualidade.

A própria Miley brinca que a personagem foi a primeira drag queen feita para crianças. Afinal, usar de identidade secreta uma montação com perucas, maquiagens extravagantes, saltos altos e roupas coloridas funciona mesmo como metáfora queer.

Ela, que se identifica como parte da comunidade LGBTQIA+, se apropriou desse apelo —no último show que fez no Brasil, por exemplo, há quatro anos, Miley abençoou a união de dois rapazes no palco.

No novo programa, Miley encontra Chappell Roan, artista que explora as fronteiras entre diva pop e drag, e que acaba de fazer um show em São Paulo. Chappell fala da importância de Hannah em sua vida, como menina lésbica no interior dos Estados Unidos, e da influência da personagem na sua carreira.

“Hannah Montana” levou uns anos para sair do papel, e Miley quase não conseguiu ser a personagem principal por ser considerada jovem demais. Mas num golpe de sorte acabou sendo chamada para mais uma rodada de testes em Los Angeles, e recebeu o sinal verde da Disney.

Hannah encantou uma legião de adolescentes numa época em que entretenimento era, basicamente, televisão. A série da Disney ganhou popularidade tão rápido que não passou muito tempo limitada a quem podia desembolsar dinheiro para assinar o canal de TV a cabo da empresa —seu rosto logo se espalhou por mochilas, lancheiras, capas de caderno, lojas de brinquedo. Dois anos depois da estreia, passou a ser exibida na TV aberta, pela Globo.

Miley descartou a ideia de fazer uma nova temporada. Está satisfeita com as quatro que gravou no passado, todas disponíveis no Disney+. “Isso aqui já foi muita coisa”, disse ela no evento de lançamento do especial em Los Angeles, nesta segunda-feira (23). Do jeito que é, logo Miley anuncia um disco de um gênero que nunca cantou ou algo mais inusitado ainda.

Mas criadora está finalmente em paz com criatura, voltando a ela vez ou outra, mas mantendo certa distância. É seu jeito de viver o melhor dos dois mundos.

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