Pai sofre. Mas sofrer em Paris é sempre mais elegante. Na semana passada, a pedido do herdeiro, entrei no Louvre para visitar a “Mona Lisa“. A última vez que flanei pelo museu foi há dez ou 15 anos. As filas, naquele tempo, já eram um suplício considerável. Hoje, adquiriram a consistência, a lentidão e a brutalidade de uma peregrinação medieval.
E, no caso da “Mona Lisa”, que tem uma sala só para ela, há um mar de gente que se esmaga e atropela para sorrir com o sorriso.
É a frase certa, sorrir com o sorriso. A ideia do turista não é ver a “Mona Lisa”; é provar aos outros que se viu a “Mona Lisa”. O ritual não mente: o turista aproxima-se, ergue o braço num gesto litúrgico, exibe a dentadura, fixa a própria cara diante do quadro, recolhe a prova documental e desaparece pelos fundos. É a missão cumprida de uma missão comprida.
Nenhuma novidade. Turismo, hoje, é performance –e Paris é o maior palco do mundo. Em cada esquina, há criaturas de pose estudada, ajeitando o cabelo, corrigindo o ângulo, testando iluminações. O cenário é apenas isso, cenário para o ator principal.
E quando nos intrometemos no enquadramento porque a via é pública e o tempo é curto, fazem cara feia ou respondem grosso. Paris é deles, o abuso é nosso.
A febre ganha contornos tão delirantes que até na Vigília Pascal da reconstruída Notre-Dame –uma tradição única, com séculos de existência, em que a catedral vai se iluminando lentamente com centenas de velas– havia almas preocupadas, não com a eternidade, mas com a própria fronha.
Tudo isto seria apenas ridículo se não fosse também melancólico. Várias vezes, em conversas de circunstância, encontrei pessoas que não tinham memória das viagens que fizeram. Tinham fotos, muitas fotos, que comprovavam a presença nos lugares. Mas a experiência individual estava ausente.
É uma estranha inversão: antes da digitalização da vida humana, o retrato servia para recordar uma experiência. Hoje, as pessoas vivem experiências para justificarem o retrato. Chupa, Proust!
No caminho, perde-se muito, perde-se tudo. Volto à “Mona Lisa”. Na ânsia de chegar ao quadro, ninguém parava para ver as pinturas que antecipam a senhora Lisa Gherardini. Como, por exemplo, outras obras do mesmo Leonardo da Vinci, ali tão perto, no corredor, como “A Virgem e o Menino com Santa Ana” ou o espantoso “A Bela Ferronière”.
Sem falar de Ticiano, Veronese ou Tintoretto, entregues às moscas, enquanto a multidão se atropelava por um sorriso.
Esse sorriso, na história da arte, tem fama de enigmático. É um sorriso sereno, triste, metafísico –as teses abundam. Eu cá desconfio que é irônico e trocista. A senhora diverte-se há muitos anos com o circo diário que tem à frente.
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