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Peça baseada em tartaruga Jonathan critica o colonialismo – 03/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

A tartaruga gigante Jonathan continua viva, aos 153 anos, na Ilha de Santa Helena. Não passou de uma pegadinha de 1º de abril a divulgação da morte do animal terrestre mais velho do mundo, noticiada a partir de um perfil no X, antigo Twitter, que simulava ser do veterinário Joe Hollis, cuidador do quelônio.

O perfil era fake, mas a troça chegou como verdade ao dramaturgo e ator Rafael Souza-Ribeiro, o Rafuda, um dos roteiristas da novela Beleza Fatal. Antes de entrar em cena, na quarta (1º), no Campo das Artes, em São Luiz do Purunã (PR), com o monólogo “Jonathan”, ele leu o noticiário, quase perdeu a voz e, no final, compartilhou a informação com o público.

No dia seguinte, já no Festival de Curitiba, veio o alívio: o governo de Santa Helena, território britânico no oceano Atlântico, garantiu que a tartaruga continua a desfrutar a vida tranquilamente.

Escrito e interpretado por Rafuda, “Jonathan” estreou em 2023 no Rio de Janeiro, sob a direção de Dulce Penna. O solo foi escolhido como uma das atrações da Mostra Lucia Camargo, a principal da 34ª edição do festival na capital paranaense, com apresentações na quinta (2) e sexta (3) no Sesc da Esquina.

O espetáculo parte da existência da tartaruga de quase 200 anos para refletir sobre o colonialismo, os apagamentos históricos e a potência criadora da juventude negra e periférica.

A inspiração veio de uma notícia lida no F5, da Folha, em 2017: “Tartaruga mais velha do mundo é homossexual”. Na hora, Rafuda imaginou que a história poderia virar uma peça. Durante as pesquisas, relacionou a longevidade de Jonathan à vida breve de muitos meninos pretos no Rio de Janeiro, onde mora.

“Eles levam tiros indo para a escola, indo para o trabalho, voltando da casa da avó. Eles não têm direito à longevidade”, lamenta. “Com o privilégio de ter ficado mais velho, pensei: preciso juntar essas duas pontas”.

No palco, Jonathan é ao mesmo tempo a tartaruga centenária e um jovem negro de 17 anos, responsável pelos cuidados com o animal. O adolescente amadurece e decide não ser submisso aos poderes dominantes. Um brinco cheio de brilhos simboliza a independência do garoto.

Na vida real, a tartaruga gigante é o principal símbolo de Santa Helena, a ilha colonizada por ingleses. A imagem de Jonathan está em camisetas, bonés e até na moeda de cinco centavos. Foi um presente do governo britânico aos moradores, quando tinha apenas 30 anos. Viveu 26 anos com outra tartaruga, Frederica. Durante exames, os cuidadores descobriram que Frederica, na verdade, era um macho. Ou seja, Jonathan é gay.

“O ponto de partida é a história da tartaruga, mas falamos sobre diversas ideias de uma violência colonial”, explica o ator. “A violência da colonização está em todos os aspectos: na condenação do tipo de roupa que uma mulher pode usar ou não, na forma como um casal pode se amar ou não, no que pode ser dito ou não”.

O espetáculo trata o quelônio como uma testemunha das transformações do mundo, passando por duas guerras mundiais, pela escravização e posterior abolição. “Jonathan viu o fim dos Beatles e o surgimento do Oasis. E sobreviveu”, brinca Rafuda.

O solo já fez temporadas nos teatros Ipanema, Glaucio Gil e Poeira, além de apresentações no Museu da Maré e em centros culturais na zona oeste do Rio de Janeiro. Também circulou em outras cidades por meio do programa Sesc Pulsar. A estreia em Curitiba foi a primeira em outro estado.

Não há previsão para apres entações em São Paulo, apesar de esse ser um desejo do artista. “Trabalhamos em busca de editais. É no passinho da tartaruga, devagar e longe. Quando penso em Jonathan, com seus 193 anos, falo: é tudo a seu tempo”.

Para o ator, caso pudesse falar, a tartaruga de Santa Helena teria um recado curto e direto para os humanos: “Melhorem”.

“Acho que Jonathan sobrevive esse tempo todo para nos dizer: melhorem, se inspirem, porque ainda há muito a conquistar, a revolucionar”.

A jornalista viajou a convite do festival

A jornalista viajou a convite do Festival de Curitiba.

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