Uma das principais empresas voltadas à suinocultura no Brasil, a Frimesa já sente os impactos da guerra no Oriente Médio nos custos de produção. A companhia, resultante de uma cooperativa de alimentos do Paraná, diz que o “efeito guerra” a fez subir em 3% o valor de seus produtos.
O preço do petróleo disparou nas últimas semanas. O combustível é matéria-prima crucial para a cadeia de plástico, usado em embalagens dos produtos da empresa. Além de suínos, a Frimesa é uma grande fabricante de lácteos no país. Ao todo, a marca comercializa 563 itens diferentes, sendo 371 em carnes e 192 em lácteos.
“O efeito do [aumento] do combustível é na veia. Os fretes já aumentaram 7% e representam 6% da nossa matriz de custos. Isso significa 0,5% no valor para o consumidor final”, diz Elias José Zydek, presidente da Frimesa. “Nós também usamos muito plástico e a embalagem teve aumento de 25%. Ela representa 10% da nossa matriz de custos. O impacto direto no preço final é de 2,5%. Ou seja, eu tenho de aumentar os preços em 3% só para cobrir o efeito da guerra.”
“Todo aumento de custo que nós temos, a gente acaba repassando. Não tem como absorver. Hoje, está tudo muito ajustado”, diz Zydek. “A cadeia produtiva precisa repassar 5% dos preços para recompor margens e cobrir os custos no curtíssimo prazo. A embalagem tem um efeito imediato sobre os nossos custos.”
Composta por cinco cooperativas, a Frimesa apresentou uma receita de R$ 7 bilhões em 2025, alta de 7% sobre o ano anterior. A projeção é encerrar este ano com faturamento acima de R$ 8 bilhões. A ideia é que a marca chegue a R$ 15 bilhões em receita até 2032. A companhia é a quarta maior produtora de carne suína no Brasil, atualmente, atrás de MBRF (a empresa resultante da fusão entre BRF e Marfrig), Aurora e JBS, por meio da marca Seara.
Após investir R$ 1,35 bilhão para aumentar a capacidade de sua fábrica de processamento de suínos em Assis Chateaubriand (PR), a companhia elegeu São Paulo como um mercado estratégico para ganhar receita. Hoje, a unidade fabril abate mais de 7.000 suínos por dia, mas a ideia é que o espaço dobre sua capacidade de processamento em breve e atinja a marca de 23 mil suínos por dia em 2032.
“A planta ainda precisa de alguns investimentos. Vamos investir em torno de R$ 150 milhões em máquinas e equipamentos, mas a parte de construção civil está pronta”, afirma o presidente da Frimesa.
Zydek aponta que São Paulo é um mercado estratégico também por sua proximidade com o Paraná, pelo poder aquisitivo do estado e pela escala nacional. Desde o fim de 2025, a companhia estampa a marca na camisa do Corinthians, um patrocínio que não teve valores divulgados, mas já foi renovado até o fim deste ano.
A companhia, que anunciou investimento de cerca de R$ 120 milhões para o reposicionamento de seus produtos nos supermercados, contratou duas consultorias para um projeto para repaginar os produtos da marca. A ideia é ter cores mais vibrantes no portfólio. Na linha de lácteos, foram introduzidos novos produtos para a linha zero açúcar, impulsionada pela tendência das canetas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro.
DÓLAR
O aumento da capacidade produtiva da Frimesa também deve impulsionar as exportações de suínos para outros países. Hoje, um terço da receita da companhia vem dessa frente, sendo que os principais mercados da empresa fora do Brasil são Singapura, Filipinas e Hong Kong – os três representam, juntos, 35% da receita das exportações. Uruguai e Argentina completam o top 5.
Como o consumo de carne suína é estritamente proibido no Alcorão, a empresa tem passado praticamente ilesa pelo conflito geopolítico instaurado no estreito de Hormuz. Mas, ainda que suas exportações utilizem rotas alternativas, o aumento no preço do frete e do petróleo impacta os ganhos da empresa.
“O frango está indo para a zona de guerra hoje. O suíno não. Então, só temos o efeito do frete. Mesmo assim, não dá para tirar proveito dessa guerra. Acho que só fabricantes de armas mesmo [estão ganhando com a guerra]”, diz Zydek.
Nessa linha, o executivo estima que o câmbio de equilíbrio ideal para a operação seria que o dólar figurasse na casa de R$ 5,30, um pouco acima do patamar atual. “O câmbio está nos prejudicando. Ajuda a quem importa, mas prejudica quem exporta”, aponta ele, que ainda espera por uma redução mais acentuada da taxa Selic no país — a inflação, no entanto, voltou ao radar com a escalada da guerra e pode prejudicar a queda dos juros.