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Já podemos afirmar que os EUA perderam a guerra no Irã? – 26/03/2026 – Rodrigo Tavares

by Silas Câmara

Trump vive trancado em uma autoilusão típica dos autocratas personalistas, dominada pela megalomania, pela errância e pelo impulso autodestrutivo. Confiar uma guerra a um narcisista fanático é como pôr o Estado a serviço de uma patologia. O presidente americano compartilha com o imperador Guilherme 2º da Alemanha (1859-1941) a mentira compulsiva e o entendimento limitado de relações de causa e efeito; com o líder ugandense Idi Amin (1925- 2003), a grandiosidade delirante, a arbitrariedade e o descontrole público. Ao atacar o Irã, Trump quis exibir a própria onipotência. Cercado pela família, por figuras passivas e anuentes e por extremistas como ele, com o aparelho de Estado já erodido, não houve contraditório.

Dediquei a primeira fase da minha vida profissional a tentar identificar as causas dos conflitos armados. Estava em Ramala, em 2006, no dia em que o Hamas chegou ao poder. Em Harare, no Zimbábue, escapei à vigilância dos serviços secretos do ditador Robert Mugabe (1924-2019). Publiquei um plano de paz para a Caxemira. Em Israel, Palestina, Zimbábue, Paquistão e Índia, quando o ego do atacante se sobrepõe aos objetivos estratégicos, a probabilidade de errar é maior. E o presidente americano já errou.

Seria uma vitória para Trump se fosse uma guerra curta, tal como a operação militar na Venezuela (2026), no Panamá (1989) ou em Granada (1983), mas este está se tornando um conflito prolongado, contra um adversário militarmente preparado para resistir ao desgaste. Os americanos têm o soco mais rápido e forte, mas os iranianos têm mais corpo para aguentar a pancada. No Irã e nos EUA, vários analistas afirmam que dificilmente os EUA conseguirão uma vitória inquestionável nas próximas semanas.

Seria uma vitória se os Estados Unidos conseguissem derrubar o regime e instalar em Teerã alguém palatável para o Ocidente. Mas o aparato autocrático iraniano não se resume a um governo, muito menos a um homem. É uma estrutura de poder que, como musgo, se entranhou em todo o aparelho de Estado. Quando se elimina uma figura de comando, outra ocupa o lugar rapidamente. O regime consegue acionar mecanismos de sucessão e preservar a continuidade institucional, sobretudo porque o poder está distribuído entre o líder supremo, a Guarda Revolucionária, o aparato judicial e o sistema clerical. E porque a oposição não está nem organizada nem preparada para assumir as rédeas do país.

Seria uma vitória se os EUA conseguissem ampliar a voz da dissidência iraniana. Mas os persas, inclusive os que jamais defenderam o regime, não se aliarão ao agressor. Ao contrário, a agressão externa tende a reforçar a legitimidade do regime, porque, diante da guerra, a sobrevivência se sobrepõe à liberdade. A República Islâmica é um híbrido complexo de poder religioso, político e judicial que, como mostra Vali Nasr em Iran’s Grand Strategy, se alimenta há décadas da ameaça americana como fonte de coesão. A ofensiva apenas reforça essa lógica. Como escrevi aqui na Folha, o ataque israelo-americano interrompeu o movimento pró-democracia que eclodiu no início do ano no Irã.

Seria uma vitória se fosse um conflito geograficamente circunscrito e economicamente isolado. Mas os iranianos reagem tentando desestabilizar o sistema do petrodólar, um arranjo criado nos anos 1970 em que o petróleo é comercializado sobretudo em dólares, o que aumenta a demanda global pela moeda americana e também canaliza para os EUA capitais, reservas e investimentos denominados em dólares. O impacto econômico da guerra está se alastrando por vários canais de transmissão. O primeiro é o da economia real, por meio de interrupções na produção e no transporte de petróleo e gás. O segundo é o da economia financeira, com juros mais altos, maior aversão ao risco e eventual queda nas remessas de trabalhadores no Golfo. No cenário mais otimista, o resultado mais provável é estagflação: mais inflação no curto prazo e menos crescimento.

Seria uma vitória se os Estados Unidos conseguissem ampliar seu soft power na região. Mas o que exibem é fragilidade (como é que a maior potência militar da história não consegue manter o canal de Hormuz aberto?), incapacidade de proteger os próprios aliados e a perspectiva de deixar um rastro de milhões de refugiados iranianos espalhados pelo mundo, dificilmente simpáticos aos EUA. Esta semana conversei com cerca de 30 pessoas em Qatar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, incluindo membros do governo e das famílias reais. Em privado, o sentimento é de forte apreensão. Muitos deles estão perplexos diante da incapacidade dos EUA de garantir sua segurança.

Trump só poderia comemorar se conseguisse, por meio de uma operação militar rápida, alcançar um resultado político duradouro a um custo financeiro suportável. Não é esse, porém, o desfecho mais provável. O cenário mais plausível é que os EUA busquem um acordo quanto antes e o apresentem como vitória, embora, na prática, a guerra termine sem vencedor claro. Desde o início do conflito que, nas ruas de Teerã, se fala que Mohammad Bagher Ghalibaf, o presidente do parlamento, está negociando com a administração Trump. Um acordo, porém, não encerrará a crise. O mais previsível é um quadro prolongado de pressão, instabilidade e escaladas periódicas, mesmo sem guerra total permanente. Para a população iraniana, o efeito será mais inflação, mais pressão econômica e mais incerteza. No interior do Irã, o sistema dificilmente cairá; no curto prazo, a tendência é de mais securitização e mais controle. Se for este o cenário, os EUA sairão menores do conflito do que entraram. Derrota para Trump, o ególatra.

No pior cenário, os Estados Unidos terão de enviar militares para o terreno, se afundando, como aconteceu em Vietnã, Afeganistão e Iraque, onde cerca de 65 mil americanos acabaram mortos. Também a Arábia Saudita declararia guerra ao Irã; o Japão poderia intervir para garantir a abertura dos estreitos de Hormuz e de Bab el-Mandeb e o Paquistão seria arrastado para o conflito devido ao pacto militar de defesa mútua que assinou com os sauditas. O saldo global seria uma combinação de desindustrialização, remilitarização e mercantilização, com danos colossais para a economia mundial. Nova derrota para Trump, o homem de negócios.


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