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Filantropia equivale a 2 horas do orçamento federal – 27/03/2026 – Laura Machado

by Silas Câmara

O governo federal teve, em 2023, uma despesa total de R$ 4,9 trilhões em valores correntes, de acordo com a Secretaria Nacional do Tesouro. Esse valor equivale a um gasto de cerca de R$ 20 bilhões por dia. Considerando que o valor do investimento social privado brasileiro é de R$ 5,8 bilhões, ele equivale ao gasto do governo em duas horas de um dia de trabalho. Como fazer esse recurso valioso da nossa filantropia ser realmente transformador?

O ISP (Investimento Social Privado) refere-se a empresas, institutos, fundações e fundos filantrópicos que mobilizam e investem recursos privados de forma voluntária em iniciativas sociais, ambientais, científicas e culturais de interesse público. Com frequência, são ações alinhadas aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e à agenda ESG (ambiental, social e de governança).

O Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) é a principal associação que coordena essas ações importantíssimas para o Brasil. Uma das realizações da associação é o Censo Gife, uma pesquisa bienal, quantitativa, autodeclaratória e de participação voluntária, respondida por meio de questionário online.

As respostas coletadas em 2025 referem-se, predominantemente, à execução consolidada do ano de 2024 das organizações respondentes. Entre as muitas valiosas informações do censo, uma delas é que, em 2024, o investimento social privado no Brasil foi de R$ 5,8 bilhões. Imagina-se que nem todas as instituições participem do Gife ou da pesquisa, mas ela nos permite uma primeira estimativa.

O desafio que se impõe é: considerando o tamanho e volume de gastos do governo brasileiro, qual seria o melhor uso desses recursos filantrópicos? Podemos organizar as formas de atuação do investimento social privado em cinco categorias.

A primeira seria fortalecer a transparência, apoiar o governo a explicar seus programas, cobrá-los e executá-los, exigir medidas de ajuste e informar sobre sua eficiência, tornando o gasto público compreensível para todos.

Uma segunda categoria seria advogar identificando novos problemas públicos, realizando diagnósticos, comunicando e divulgando esses temas para a sociedade.

Outra alternativa é atuar com informação e inovação, identificando as melhores práticas internacionais, divulgando-as e desenvolvendo novas tecnologias, apostando na inovação. Considerando a dificuldade do governo de inovar, essa atuação pode ser importante desde que seja transmitida para o poder público.

Essas três formas de atuação são maneiras de influenciar o Estado brasileiro, um grande cruzeiro, a apontar e navegar em uma direção mais eficiente.

Outras formas alternativas de atuação possíveis são a participação da implementação de programas em conjunto com o governo ou a execução diretamente à prestação de serviços públicos, por exemplo, quando fábricas ou grandes empresas atuam cuidando do entorno de suas instalações. Essas formas talvez sejam mais “mão na massa” e envolvem menor atividade de influência e mais execução direta.

Dado o tamanho do orçamento público brasileiro, talvez a execução direta de prestação de serviços não seja a forma mais efetiva e que terá maior impacto em um país com um estado do tamanho do nosso. Por exemplo, se o investimento social privado conseguir fazer que durante duas horas de um ano o governo tome melhores decisões, atividade nada trivial, é possível que o retorno social seja pelo menos tão efetivo quanto toda a execução direta feita pela sociedade civil.


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