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Transição energética sob estresse – 07/04/2026 – Joisa Dutra

by Silas Câmara

Lá se vão várias semanas desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. O que parecia um episódio de desfecho rápido se prolonga sem horizonte claro —e já se traduz em uma crise energética de grandes proporções.

Não é um evento isolado. A década começou sob o impacto da pandemia, seguiu com a invasão da Ucrânia e agora se aprofunda com mais uma crise geopolítica relevante. Os efeitos se acumulam: rupturas nas cadeias de suprimento, inflação persistente e crescente incerteza.

Vivemos, em suma, uma era de crises em sequência. O quadro atual ilustra bem essa dinâmica. O fechamento do estreito de Hormuz afeta cerca de 20% do consumo global de petróleo e aproximadamente 20% do comércio mundial de GNL (Gás Natural Liquefeito) —o que corresponde a apenas cerca de 3% da oferta global de gás natural. No caso dos fertilizantes, o impacto recai sobre uma parcela relevante do comércio marítimo, próxima de um quinto dos fluxos globais. Trata-se de um ponto nevrálgico da economia global —e, portanto, também da brasileira.

Esse cenário se desenrola em um mundo cada vez mais multipolar, no qual diferentes países seguem estratégias distintas de segurança energética.

Os Estados Unidos permanecem bem-posicionados, combinando abundância de recursos fósseis, especialmente após a revolução do shale gas, com avanços relevantes em renováveis e armazenamento.

A China, por sua vez, persegue uma estratégia baseada em escala e controle de cadeias produtivas. No seu equilíbrio de eletroestado, lidera em renováveis, armazenamento e veículos elétricos, ao mesmo tempo em que mantém investimentos significativos em combustíveis fósseis. Mais do que uma economia de energia, trata-se de uma economia de materiais, na qual o domínio das cadeias de minerais críticos é central.

É nesse contexto que o Brasil se insere.

Nossa matriz energética segue sendo uma das mais limpas do G20. Mas essa vantagem convive com fragilidades crescentes —sobretudo nas cadeias de suprimento e na capacidade de transformar recursos em competitividade.

No setor de gás natural, apesar dos avanços institucionais recentes, o desenvolvimento de um mercado efetivamente competitivo segue lento. Persistem incertezas regulatórias e concentração de mercado, enquanto o país se expõe cada vez mais ao GNL importado.

Os efeitos já aparecem. O recente leilão de capacidade contratou volumes expressivos de geração térmica a gás. Mas permanecem perguntas fundamentais: A quais referências internacionais esses contratos estão indexados? Como esses preços se transmitem para a eletricidade e para a economia? Como o conflito no Oriente Médio vai afetar prazos e retornos desses investimentos?

Muitos dos projetos podem se materializar em condições diferentes das contratadas no leilão –é o que diz a nossa história. De todo o modo, sem respostas claras, o risco é importar volatilidade sem capturar eficiência.

No setor elétrico, o avanço das renováveis é inegável. Mas sua integração ao sistema ainda é incompleta. O aumento do curtailment, sem solução estrutural, revela os limites do modelo atual. Ao mesmo tempo, persistem incentivos que ampliam a expansão, como no caso da micro e minigeração distribuída que caminha para atingir 50 GW —um crescimento expressivo que avança mais rápido do que a capacidade de coordenação do sistema.

A experiência internacional mostra que armazenamento e sinais de preço adequados são elementos centrais para resolver esse descompasso —permitindo transformar excedentes em valor e suavizar a volatilidade. Uma boa notícia vem da recente decisão do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) de estabelecer o armazenamento hidráulico como estratégico para o planejamento. Ainda assim, as novas soluções tecnológicas têm avançado lentamente. O hidrogênio de baixo carbono ilustra esse ponto.

No fundo, trata-se de um problema institucional. As tecnologias evoluíram. Os mercados, nem tanto. Instituições de mercado bem desenhadas são essenciais para coordenar investimentos, sinalizar escassez e reduzir custos no curto e no longo prazo. Sem elas, a transição energética perde eficiência —e aumenta o risco.

A crise no Oriente Médio deve ser vista, portanto, como um alerta.

Nos anos 1970, choques semelhantes levaram o Brasil a acelerar investimentos em hidrelétricas, petróleo e biocombustíveis. A resposta foi estrutural —e bem-sucedida.

Hoje, o desafio é diferente. Vivemos em um sistema mais descentralizado, com múltiplos agentes, maior competição por capital e restrições fiscais severas.

Nesse novo contexto, não basta investir. Sem coordenação, o investimento perde eficiência. E coordenar exige mercados que funcionem.


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