A chegada dos automóveis híbridos flex produzidos pelas montadoras chinesas vai iniciar um novo momento de compartilhamento de tecnologias.
Nesta terça (7), Antônio Filosa, presidente-executivo do grupo Stellantis, confirmou que carros da Leapmotor montados em Goiana (PE) utilizarão um motor de origem Fiat capaz de consumir gasolina e etanol.
Associado ao sistema elétrico disponível pela marca chinesa, cria-se não só um produto, mas também um novo nicho de mercado. São os REEVs (sigla em inglês para veículo elétrico com extensor de autonomia) abastecidos com gasolina ou etanol. A produção terá início no primeiro trimestre de 2027.
Nesses veículos, o motor a combustão funciona apenas como um gerador. A tecnologia foi disponibilizada no mercado brasileiro pela própria Leapmotor com o C10, um SUV de grande porte. Contudo, esse modelo ainda não pode consumir álcool, já que o motor 1.5 turbo de origem chinesa só aceita o combustível de origem fóssil.
Espera-se que o recém-lançado utilitário esportivo B10 (R$ 182.990) seja o primeiro a receber motorização Fiat. Atualmente, apenas a versão a bateria está disponível.
Ao usar o etanol para alimentar o motor/gerador a combustão, haverá uma redução significativa nas emissões de poluentes e de gases do efeito estufa. Também será possível recarregar a bateria na tomada.
Assim como ocorre com a sinergia das marcas do grupo Stellantis, as montadoras Renault e Geely preparam sua tecnologia híbrida flex. Nesse caso, são aguardados modelos PHEV (híbridos plug-in). Por enquanto, a novidade será o EX5 EM-I, cujas vendas começarão em breve, mas ainda sem a possibilidade de abastecimento com etanol.
A combinação de gasolina e eletricidade deve fazer o SUV da Geely atingir médias de consumo acima de 20 km/l mesmo com pouca energia nas baterias. Esse é o resultado apresentado por versões vendidas na China.
A autonomia puramente elétrica deve ser superior a 100 km no EX5 EM-I. O modelo já tem produção confirmada para São José dos Pinhais (PR), na fábrica compartilhada com a Renault.
Em 2025, a Geely anunciou que a motorização flex está sendo desenvolvida pela Horse Powertrain. Porém, ainda não há informação sobre a estreia comercial.
No fim de março, a GAC confirmou a produção de modelos híbridos flex no complexo do grupo HPE, em Catalão (GO). O primeiro a receber a tecnologia deverá ser o SUV médio GS3, hoje comercializado por a partir de R$ 139.990 em versão com motor 1.5 turbo a gasolina (170 cv).
Há ainda outra iniciativa que combinará etanol e eletricidade sendo desenvolvida em Goiás. O grupo Caoa avança nessa direção com modelos das marcas Chery e Changan. O Changan Uni-T hoje vendido com motor 1.5 turbo flex (180 cv) deve receber uma opção eletrificada em breve, posicionada acima do modelo atual, que custa R$ 169.990.
A BYD usa sua própria engenharia para desenvolver o Song Pro PHEV apto a receber etanol. A estreia deve ocorrer no segundo semestre, com montagem em Camaçari (BA).
A GWM também está desenvolvendo sua combinação de gasolina, eletricidade e etanol, que deve estrear no segundo semestre em versões do Haval H6 e do Tank 300.
Tantas novidades podem atropelar os planos de montadoras que trabalham há tempos nas opções híbridas flex, mas que ainda não apresentaram seus produtos. Volkswagen, Honda, GM e Nissan estão neste grupo.
Pioneira na tecnologia com o sedã Corolla Hybrid Flex (lançado em 2019), a japonesa Toyota tem obtido bons resultados nas primeiras semanas de venda do Yaris Cross. A opção HEV custa a partir de R$ 172.390.
Embora veja o potencial da Leapmotor no Brasil, Antonio Filosa defende que a disputa pelo mercado impulsionada pelas marcas chinesas carece de mecanismos de equalização.
“O governo chinês e as montadoras chinesas trabalharam durante 20 anos para planejar e implementar um ecossistema de produção, o que gera uma competitividade estrutural muito elevada”, disse o presidente-executivo do grupo Stellantis.
“Considerando isso, e considerando que a indústria automotiva brasileira mobiliza não somente as plantas já presentes no Brasil, mas milhares de fornecedores diretos e indiretos, acho que um mecanismo de equalização para esse tipo de guerra competitiva deve ser pensado e implementado.”