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O choque do petróleo está pior do que você imagina – 10/04/2026 – Economia

by Silas Câmara

Pesquise no Google o preço do petróleo e você provavelmente encontrará duas cotações amplamente divulgadas para a commodity, uma nos Estados Unidos, outra na Europa.

Esses preços, que mudam constantemente nos mercados, sugerem que, embora a guerra com o Irã tenha tornado a energia muito mais cara, as coisas não estão nem de longe tão ruins quanto há quatro anos, após a Rússia invadir a Ucrânia.

Mas se você precisasse de um navio-tanque cheio de petróleo —e rapidamente— custaria muito caro.

Na terça-feira, antes de o presidente Donald Trump anunciar que os Estados Unidos e o Irã haviam chegado a um acordo de cessar-fogo, o preço do petróleo Brent, o europeu, estava em torno de US$ 109 o barril. Isso ficava bem abaixo das máximas atingidas em 2022, quando esse preço ultrapassou brevemente US$ 130, sem ajuste pela inflação.

Mas no mercado onde empresas de energia compram e vendem petróleo líquido transportado em navios, o preço estava em quase US$ 145 o barril, um recorde e mais que o dobro do preço antes de os Estados Unidos e Israel atacarem o Irã em 28 de fevereiro, segundo a Argus Media, empresa que monitora preços de commodities.

A razão pela qual os dois preços eram tão diferentes é que o primeiro, mais comumente citado, é o preço futuro. É um instrumento financeiro que reflete o quanto os traders acham que o petróleo valerá daqui a um ou dois meses e —em termos simples— não é muito diferente do preço de uma ação. O segundo é frequentemente chamado de preço à vista, e está vinculado à entrega de muitas toneladas de petróleo bruto, que uma refinaria pode transformar em gasolina, diesel e combustível de aviação.

Os preços futuros e à vista raramente são exatamente iguais, mas a diferença entre eles cresceu de forma incomum nas últimas semanas, tanto que executivos e analistas do setor petrolífero dizem que os preços futuros não refletem mais com precisão a extensão do choque de oferta que o mundo está vivenciando.

“O mercado futuro não está representando de forma alguma a realidade do petróleo em terra e no mar”, disse Vikas Dwivedi, estrategista global de energia do Macquarie Group, uma empresa australiana de serviços financeiros. “Está bastante disfuncional.”

Mike Wirth, CEO da Chevron, a segunda maior empresa petrolífera dos EUA, expressou preocupações semelhantes no mês passado em uma conferência de energia em Houston, a CERAWeek da S&P Global.

“Os preços físicos e os suprimentos físicos refletiriam um mercado mais apertado do que eu acho que a curva futura reflete”, disse Wirth, referindo-se ao mercado de futuros.

Os preços à vista e futuros frequentemente divergem durante grandes disrupções de mercado, como a pandemia de Covid-19 e a invasão da Ucrânia pela Rússia. Convulsões internacionais ampliam a diferença entre o valor do petróleo hoje e daqui a dois meses.

Mas a diferença entre os dois preços nos últimos dias supera a de qualquer outro período nos últimos 20 anos, mostram dados da Argus. Até analistas de energia têm tido dificuldade em explicar por que essa diferença é tão grande desta vez.

“É um mistério”, disse Dwivedi.

O que está claro é que a guerra com o Irã abalou os mercados de petróleo de maneiras profundas. Estimativas indicam que as empresas interromperam 10% ou mais do suprimento mundial de petróleo desde que a guerra começou, porque não conseguem fazer os navios-tanque passarem com segurança pelo estreito de Hormuz, a estreita via navegável entre o Irã e a Península Arábica.

Os preços dispararam ao redor do mundo. E alguns países da Ásia —que depende fortemente do combustível do Golfo Pérsico— chegaram a enfrentar escassez. Postos de gasolina no Vietnã e na Tailândia recusaram clientes, dizendo que não tinham combustível; o Sri Lanka declarou todas as quartas-feiras como feriado público; e muitos outros países determinaram ou incentivaram o trabalho remoto.

O cessar-fogo de duas semanas com o Irã fez os preços do petróleo despencarem nas horas após Trump anunciar o acordo, mas muito pouco mudou na prática. As empresas de navegação continuam cautelosas em enviar embarcações pelo estreito. Isso significa que uma parcela substancial do petróleo mundial ainda está presa no Golfo Pérsico.

“O preço físico simplesmente mostra o quão comprimido está tudo agora”, disse Jason Gabelman, analista de energia do banco de investimentos TD Cowen.

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