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Como a atenção se tornou o recurso mais disputado do mundo – 10/04/2026 – Economia

by Silas Câmara

A verdade costuma ser algo complexo que não se resume a uma notificação de “push”, enviada para a tela de bloqueio do celular. Mas, na era da comunicação via redes sociais, proliferam os chamados de “veja”, “confira”, “acompanhe”, na tentativa de capturar alguma parte dos 86.400 segundos que preenchem o dia do ser humano.

Pode ser uma notícia, mensagem de WhatsApp, vídeo no TikTok, foto no Instagram, post no X, email do trabalho ou notificação das bets. Todos buscam o mesmo: atenção, recurso que, de tão disputado, está cada vez mais escasso.

Esse é o tema escolhido pelo jornalista americano Chris Hayes, 47, para entender a sociedade atual, mergulhada em tantas mensagens fragmentadas que têm dificuldade em selecionar o que realmente importa e se desconectar do resto.

Em “Capitalismo da Atenção: Como a Atenção se Tornou o Recurso Mais Escasso do Mundo” (Globo Livros, selo Livros de Valor), o comentarista político e podcaster aborda o desafio de manter a concentração em meio a inúmeros apelos digitais.

“Minha experiência é aquilo em que eu aceito prestar atenção”, diz o autor, parafraseando o filósofo e psicólogo americano William James em “Princípios de Psicologia”, de 1890. Hoje, diz o jornalista, “nosso domínio sobre nossa própria mente nos foi roubado. Nossa vida interior foi transformada de uma forma sem precedentes. Isso é verdade em praticamente todos os países e todas as culturas do mundo”.

Segundo Hayes, as notificações recebidas na tela são como o “canto da sereia”, que hipnotiza e leva embora o nosso foco.

O autor começa a obra lembrando uma das aventuras de Odisseu, quando o herói de Homero pede à tripulação que o amarre ao mastro da embarcação, para que ele possa deixar com segurança a ilha da feiticeira Circe sem sucumbir ao canto de duas sereias que iriam desviá-lo do caminho e levá-lo à morte.

O autor brinca com o assunto no título original do livro: “The Sirens’ Call” —em inglês, “siren” quer dizer tanto “sereia” quanto “sirene”, esta última um dispositivo também criado para chamar a atenção.

O subtítulo original também é mais dramático: “How Attention Became the World’s Most Endangered Resource”, ou “como a atenção se tornou o recurso mais ameaçado do mundo”.

A escolha da expressão “ameaçado” não é banal e parte da própria vivência pessoal de Chris Hayes. O autor é comentarista político televisivo nos Estados Unidos, em tempos de Donald Trump e Elon Musk —as duas figuras mais representativas do poder político e econômico global, respectivamente.

Tanto Trump quanto Musk sabem como utilizar a seu favor o “canto das sereias”. Ambos usam as respectivas redes sociais para pautar a agenda global, não raro chamando a atenção para temas paralelos a fim de desviar o foco de assuntos que lhes são espinhosos.

O presidente dos EUA lançou em 2022 a Truth Social, rede social voltada para um público conservador, depois de ter sido banido do antigo Twitter, hoje X. Este último, por sua vez, passou a ser controlado por Musk no fim de 2022; desde então, o homem mais rico do mundo transformou a plataforma, que deixou de ser uma empresa de capital aberto e se tornou ainda mais refratária a moderações de conteúdo.

Para Hayes, assim como a Revolução Industrial transformou o trabalho físico em um ativo explorável, a revolução digital converteu a atenção em matéria-prima para a nova economia.

Ela passou a ser conquistada de maneira silenciosa, invasiva e muito lucrativa para as big techs, as maiores e mais influentes empresas de tecnologia do mundo, como Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon e Meta (WhatsApp, Instagram e Facebook).

O principal ponto de Hayes é deixar claro que a nossa atenção já não é um “bem” de caráter estritamente pessoal; se tornou um “ativo” no mundo dos algoritmos, envolvendo todos os milhares ou milhões de “likes”, compartilhamentos e visualizações que agora direcionam o investimento do mercado publicitário. Quanto maior o engajamento do público, mais caro o espaço. É o preço pela “atenção social”.

Em meio a tantos apelos, Chris Hayes diz que “ter foco é ter poder”. O autor não dá uma receita de bolo de como conquistar mais foco (disse que tentou meditação, sem resultados convincentes), mas garante que a autodisciplina para resistir aos mais diferentes chamados contribui para a nossa saúde mental.

Para além da relação controversa entre big techs e democracia, o livro de Chris Hayes faz pensar sobre saúde mental e o futuro da mídia —e, possivelmente, da própria sociedade.

Hoje, a inteligência artificial ampliou o acesso ao conhecimento, o que significa que diversas instâncias do saber já não estão circunscritas a determinados círculos sociais ou econômicos. Mas a sabedoria passou a residir na seleção das informações e experiências que importam, a velha máxima de separar o joio do trigo.

P.S.: O leitor que chegou até o fim desta resenha dispensou de três a quatro minutos da sua atenção. É um tempo precioso, considerando que a maioria fica, em média, 30 segundos em uma notícia, segundo a empresa Chartbeat, que mede o tráfego na web.

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