O BRB (Banco de Brasília) negocia a venda de ativos comprados do Banco Master para a gestora Quadra Capital, o que daria fôlego para a instituição. Desde a tentativa frustrada de compra do Master e aquisição de carteiras fraudulentas da instituição de Daniel Vorcaro, o banco do Distrito Federal enfrenta uma crise de liquidez e capital e negocia alternativas para se manter de pé.
No acordo em negociação, a Quadra estruturaria um Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) para incorporar esses ativos vindos do Master. Por se tratar de uma operação voltada à liquidez, o negócio não precisa de aprovação do Banco Central, mas a autoridade monetária pode manifestar alguma objeção, se julgar pertinente. O regulador tem acompanhado de perto as ações do BRB.
De acordo com interlocutores ouvidos pela Folha sob condição de anonimato, o BRB será o maior cotista do fundo, que já conta com mais de cem investidores comprometidos em comprar o restante das cotas. O valor investido por esses outros investidores, em sua maioria fundos de investimento, vai direto para o caixa do banco do Distrito Federal.
Criada em 2016, a gestora paulistana é comandada por Nilto Calixto Silva, que anteriormente trabalhou com renda fixa no Credit Suisse. Segundo dados da Comdinheiro/Nelogica, atualmente são 39 fundos com R$ 9 bilhões sob gestão da Quadra.
A atual governadora do DF, Celina Leão (PP), disse em suas redes sociais que a proposta recebida pelo BRB envolvia o pagamento de R$ 4 bilhões à vista. Outros R$ 11 bilhões seriam pagos em cotas deste Fidc. Na avaliação da gestora, os ativos do Master em posse do BRB somam R$ 15 bilhões.
“Seguimos avaliando com responsabilidade e rigor técnico cada etapa, sempre com o objetivo na proteção do interesse público, na solidez do sistema financeiro e na preservação dos ativos do Distrito Federal”, afirmou Celina na última sexta (10).
Anteriormente, o BRB afirmou que teria R$ 21,9 bilhões de créditos vindos do Master. Porém, a conta não está fechada. Após reavaliação da qualidade dos ativos, seus riscos e prazos, o valor pode ser menor.
A maioria dos ativos são recebíveis do Credcesta, que concede crédito consignado a servidores públicos, estimados em R$ 9 bilhões. Há ainda empréstimos a empresas e imobiliários, além de ações da Oncoclínicas e da Ambipar, que também entrariam no Fidc.
Segundo pessoas a par das negociações, a mudança no governo do DF, com a saída de Ibaneis Rocha (MDB) ao fim de março para participar das eleições, tem agilizado as tratativas envolvendo o BRB.
A proposta da Quadra Capital, segundo pessoas a par do assunto, é discutida há meses. Também houve outras interessadas nos ativos na Faria Lima e alguns dos nomes de pretensos compradores foram levados ao Banco Central.
Como gestora do Fidc, a Quadra ficaria responsável por cobrar devedores do BRB, inclusive na Justiça. Como o ganho da gestora é por meio de uma parcela do retorno, quanto maior o fluxo de pagamento, mais ela ganha.
QUADRA CAPITAL
A Quadra gere, em sua maioria, fundos multimercado, Fidcs e FIPs (fundo de investimento em participações, que investe em empresas de capital aberto ou fechado).
A estratégia do negócio é adquirir ativos arriscados e ilíquidos e cobrar altas taxas para recuperá-los, como créditos judiciais. Segundo dados da Anbima, de fevereiro de 2026, a gestora tinha R$ 7,4 bilhões de patrimônio líquido. Eram R$ 3,7 bilhões em fundos multimercado, R$ 2,1 bilhões de Fidcs e R$ 1,5 bilhão de FIPs.
As rentabilidades dos fundos sob gestão variam de 28% em 12 meses, no caso do fundo multimercado Ceteri, a uma perda anual de 13,6% no fundo multimercado Millas II, segundo dados da Anbima.
Os clientes, por sua vez, são qualificados, com investimentos acima de R$ 10 milhões, não residentes ou outros fundos. A modalidade adotada pela Quadra é de condomínio fechado, ou seja, as cotas não podem ser negociadas livremente no mercado e cotistas podem reaver o investimento apenas no vencimento do fundo. No caso do Fidc do BRB o vencimento será indeterminado, já que não é possível prever em quanto tempo todos os créditos podem ser reavidos.