O CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos, Marcelo Mello, afirma que os candidatos à Presidência terão de deixar claro como será a condução da política fiscal no próximo governo para garantir a redução da dívida pública.
Em entrevista ao C-Level, videocast semanal da Folha, o executivo defendeu a sinalização para evitar pressão adicional na política de juros do Banco Central, que já enfrenta o impacto da guerra dos Estados Unidos com o Irã nos preços.
“Se tiver uma postura ortodoxa, mostrando a relevância de algumas medidas importantes para [atingir] no futuro um ponto de inflexão nessa crescente fiscal, acho que ajuda o preço. Se a gente não tiver essa sinalização, se o discurso for populista, o que a gente vai ver, além da questão geopolítica, é a eleição colocando mais pressão ainda na política monetária”, diz.
Para ele, os candidatos deveriam também indicar os nomes da futura equipe econômica. “Independentemente de quem seja o próximo presidente, o ajuste vai acontecer. Porque ele é necessário, e a alternativa a ele é muito pior para qualquer um dos candidatos”, avalia. “Ninguém ganha com esse cenário de juro real e juro nominal no patamar tão elevado assim, porque não é sustentável.”
O governo Lula (PT) estima que a dívida bruta do governo vá atingir 86% do PIB no ano que vem.
A SulAmérica Investimentos é uma das maiores gestoras do país, com mais de R$ 85 bilhões sob gestão. A empresa integra a SulAmérica Seguradora, que oferece planos de saúde, odontológicos e previdenciários, além de seguro de vida.
O momento é de turbulência, com incertezas no mercado causadas principalmente pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã. De que forma esse cenário impacta o mercado de capitais?
Esse evento geopolítico [guerra] traz um nível de incerteza bastante relevante em relação aos combustíveis, que não só impacta o comportamento das moedas mas principalmente traz o componente inflacionário para todos os países do mundo. Você tem um recálculo de rota da política monetária global.
Aqui no Brasil, como a Selic está em um patamar bastante elevado, o Banco Central não manteve a taxa de juros no patamar de 15% ao ano, mas aquele meio ponto percentual de redução esperado pelo mercado não se concretizou. O Banco Central decidiu ser um pouco mais comedido e, na nossa opinião, ele está correto nisso.
Os investidores estavam começando a tomar um pouco mais de risco, migrando os seus investimentos para fundos multimercados, que são fundos que têm nas suas políticas de investimentos uma flexibilidade maior para o gestor assumir riscos.
Isso vai interromper esse fluxo?
Acho que sim, porque o principal gatilho para o investidor tomar alguma decisão ou fazer algum movimento é o nível da taxa de juros. Quando o investidor começa a ver que o Banco Central vai iniciar esse processo [de redução da Selic], ele começa a se movimentar. Então, como no início do ano a projeção da redução da taxa Selic era uma redução importante, os investidores estavam se antecipando.
Agora, com essa questão geopolítica, a redução não vai ser tão relevante assim. E aí o que deve acontecer é um cenário muito parecido com o que a gente viu nos últimos dois anos: o investidor direcionando as suas reservas só para as estratégias de renda fixa, deixando um pouco de lado as estratégias de multimercado e os fundos de ações.
O Banco Central falou em “calibrar os próximos passos” ao anunciar a redução da Selic, o que foi interpretado como um sinal de cautela para as próximas reuniões. O que a gente pode esperar desses próximos passos? Qual é a projeção da SulAmérica?
A gente está com essa projeção de Selic a 13%. Na próxima reunião, de abril (28 e 29), deve vir [uma redução de] 0,25 [ponto percentual], ainda impactada pela questão geopolítica, e depois, com arrefecimento da guerra, de 0,50.
Tem uma questão que é a eleição. O que o mercado vai precisar ouvir é como vai ser a condução da política fiscal no próximo governo. Na medida em que os candidatos deixem claro o que pensam da [relação da] dívida [com o] PIB, o mercado, como sempre, vai antecipar.
Então, se tiver uma postura ortodoxa mostrando a relevância de algumas medidas importantes para [atingir] no futuro um ponto de inflexão nessa crescente fiscal, acho que ajuda o preço. Se a gente não tiver essa sinalização, se o discurso for populista, o que a gente vai ver, além da questão geopolítica, é a eleição colocando mais pressão ainda na política monetária.
O que espera dos candidatos nessa eleição?
O candidato que disputa com o atual presidente vai precisar sinalizar para o mercado qual é a equipe econômica. É claro que verbalizar o que vai ser feito do ponto de vista fiscal é super-relevante, mas a indicação da equipe vai trazer um sinal importante também para o mercado.
Ninguém ganha com esse cenário de juro real e juro nominal no patamar tão elevado assim, porque não é sustentável.
A renda no Brasil cresce, a inflação está um pouco acima da meta, mas convergindo, a gente vê o nível de desemprego muito baixo; e temos um nível de reservas internacionais muito diferente de crises passadas.
O momento que o Brasil vive hoje é muito favorável para buscar reformas estruturais do lado fiscal, para que a gente tenha um patamar diferente dos juros.
Vê disposição nas campanhas do presidente Lula (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) de fazer o que o senhor propõe?
Independentemente de quem seja o próximo presidente, o ajuste vai acontecer. Porque ele é necessário, e a alternativa a ele é muito pior para qualquer um dos candidatos. E o Congresso tem um papel relevante nisso porque os congressistas também sabem o quão danosa é a escalada da inflação e dos juros.
Num cenário em que o fiscal fica mais apertado, você tem um impacto no câmbio, o câmbio impacta a inflação, a inflação tira voto.
Talvez [com] um novo candidato, a intensidade de um ajuste fiscal seja maior do que a do incumbente. [Mas] na minha opinião, não é uma questão de “um acontece e o outro não acontece”, é uma questão da intensidade entre eles.
Vimos nos últimos meses o uso de fundos para ocultar recursos e estruturas patrimoniais ligadas ao crime organizado. Como enxerga a atuação da CVM nesses casos?
Quando a gente olha o que aconteceu, a gente percebe que o impacto maior está nos fundos de participações, nos fundos que têm ativos ilíquidos.
Por mais diligente que o código de autorregulação da Anbima [Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais] possa ser, e que a fiscalização da CVM possa ser, sempre tem algum ângulo de evolução.
Talvez, nessas estratégias mais líquidas, a CVM possa olhar um pouco mais com carinho com a Anbima para ver se não tem alguma coisa para ser feita do ponto de vista de quem dá preço, como esse preço é dado, e qual é a periodicidade de atualização desse preço.
Eu não vejo uma coisa estrutural, aliás estruturalmente eu vejo a indústria evoluindo muito com a resolução CVM 175 [regra adotada em 2023], que traz mais transparência, mais equidade, define claramente as responsabilidades de todos os stakeholders de mercado.
Mas eu acho que especificamente nesse grupo mais reduzido da indústria pode ter sim algum espaço para evolução.
Houve uma falha grande da CVM na fiscalização e também no acompanhamento dos ativos que estavam sendo ocultados em várias camadas para não serem descobertos. Como resolver esse problema?
Onde está o espaço para evolução? Justamente na forma como você avalia os ativos ilíquidos de um fundo. Eu acho que o trabalho que a CVM tem a fazer em relação a essas estruturas mais líquidas vai neste ângulo: como um ativo líquido é avaliado; quem avalia; qual é a qualificação de quem avalia; qual é a periodicidade [dessa avaliação]; qual é o backtest [simulação usando dados passados] que pode ser realizado para verificar se esse ativo realmente vale aquilo.
Esses escândalos não acendem um alerta para quem compra no mercado?
Na indústria, 95% são ativos líquidos. A indústria é supertransparente, os ativos são líquidos, então geralmente são emitidos por empresas que já acessam o mercado de capitais, são empresas listadas, são empresas boas geradoras de caixa que estão há muito tempo no mercado. Então tem uma diligência muito grande em relação a toda essa parte líquida.
Uma das empresas atingidas foi a Reag, que era grande e tinha listagem em Bolsa.
Quando você olha a Reag, todos os problemas estão nos ativos ilíquidos. [Esse caso] só reforça o meu ponto. Todos os investimentos da Reag que fizeram parte dessa fiscalização são fundos de participações.
Em 2025, o governo federal baixou uma medida aumentando a cobrança de IOF para aportes em planos de previdência. Como avalia essa decisão?
Olha, essa medida do IOF para os planos de previdência foi muito ruim. Esses consumidores que fizerem aportes esporádicos, num valor superior a R$ 600 mil ao ano, vão pagar 5% de IOF em cima do valor nominal, não do ganho de capital.
Essa medida praticamente acaba com a possibilidade de os consumidores fazerem aportes adicionais. Eu não vejo essa indústria se desenvolvendo enquanto essa medida não for ajustada.
Vê chance de que a medida seja revista?
Não acho que a curto prazo, [mas] na medida em que os agentes vão perceber o impacto negativo nesse mercado, pode ter uma discussão. Como a indústria tem uma relevância muito grande, eu acho que em algum momento no futuro, com os resultados que a gente vai ter, que tendem a ser negativos, acho que pode ter uma rediscussão do assunto.
Raio-X | Marcelo Mello, 53
O executivo está na SulAmérica desde 1998, tendo passado antes por Lloyds Bank e Multiplic. Em 2005, assumiu o comando da SulAmérica Investimentos e, em 2015, das operações de Vida e Previdência. Tem MBA em gestão empresarial pelo ITA e cursou o Advanced Management Program da Harvard Business School.