Home » Ricos merecem mais oportunidades do que pobres? – 20/04/2026 – Michael França

Ricos merecem mais oportunidades do que pobres? – 20/04/2026 – Michael França

by Silas Câmara

Olha, minha resposta é não. Cada criança e cada jovem neste vasto país merece ter oportunidades semelhantes. Agora, o que fazem com essas oportunidades, isso já é outra história.

Duas pessoas, partindo de um mesmo conjunto de oportunidades, por meio de suas escolhas e esforços vão parar em lugares muito diferentes e ter resultados muito distintos ao longo da vida. E tudo bem. A isso, costumamos chamar de uma desigualdade de resultados gerada por pessoas que tiveram um ponto de partida parecido e, a princípio, pode ser pensada como uma espécie de “desigualdade justa”.

Do ponto de vista ético e econômico, faz sentido que as pessoas tenham condições de partida menos desiguais. Essa defesa da igualdade de oportunidades tem amplo consenso entre diversos estudiosos da desigualdade. É uma bandeira com amplo apoio porque, em tese, preserva o ideal de meritocracia enquanto reconhece injustiças de partida.

Uma outra forma de colocar o assunto é dizer que, quando as desigualdades iniciais são expressivas, o desempenho observado ao longo da vida deixa de refletir aspectos individuais e passa a refletir, em grande parte, a herança familiar.

Veja… Alguns ricos são ricos porque saíram do zero e construíram algo. Outros tiveram heranças e foram além. Contudo, acreditar que todos partiram do zero é uma ideia que corresponde mais ao mundo das ilusões. E, quando fingimos que eles começaram do nada, criamos uma narrativa conveniente.

Isso porque, se eles chegaram lá pelo próprio mérito, então quem ficou para trás tem apenas a si mesmo para culpar. E assim, as heranças materiais e imateriais, aquelas mesmas que determinam quem terá maiores vantagens e quem terá apenas o esforço, permanecem escondidas na sombra de uma história de sucesso individual que nunca foi tão individual assim.

E isso tem gerado uma tensão gradativa, que tem consideráveis chances de crescer nos próximos anos, visto que, de um lado, tem-se a crença no mérito como critério de justiça, sem levar em consideração a desigualdade socioeconômica do país e, de outro, a crescente conscientização de que as oportunidades são distribuídas de forma desigual desde o início.

Porém, não vamos ficar aqui nessa coluna. Vamos um pouco além. Vamos para uma pergunta mais difícil: igualdade de oportunidades é compatível com desigualdade de resultados ao longo de gerações?

Na prática, desigualdades de resultados em uma geração tendem a virar desigualdades de oportunidade na geração seguinte. Pais ricos transferem muitas vantagens aos filhos, desde melhor educação até um amplo conjunto de heranças. Isso tende a criar um ciclo de vantagens intergeracionais que se retroalimenta ao longo do tempo. Deste modo, aceitar grandes desigualdades de resultados hoje significa aceitar desigualdades de oportunidade amanhã.

E então? O que fazemos?

Porque, no final, temos um descompasso e, sem mecanismos de redistribuição mais eficientes, o ideal de igualdade de oportunidades tende a se tornar uma ficção ainda maior.

Assim, sem redistribuição, no fundo, o que estamos aceitando é que as pessoas merecem oportunidades diferentes. E, de forma ainda mais direta, o que realmente estamos sustentando é que quem nasce rico deve ter mais oportunidades e vantagens sobre quem nasce pobre.

O texto é uma homenagem à música “Blue Train”, de John Coltrane.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment