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Indústria será vencedora em acordo com UE, diz embaixadora – 31/01/2026 – Painel S.A.

by Silas Câmara

Para a embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf, a indústria brasileira será uma das principais beneficiadas pelo recém-assinado acordo de livre comércio UE-Mercosul.

Ela acredita que o tratado vai aumentar a competitividade brasileira e fortalecer o país como plataforma de exportações industriais —não apenas como fornecedor de matérias-primas e produtos agropecuários.

A avaliação vai de encontro ao que alguns críticos antecipam como efeito negativo do acordo UE-Mercosul. Para alguns especialistas, o grande beneficiado do tratado será o agro, enquanto a indústria nacional pode acabar perdendo mercado interno para companhias europeias.

“O acordo prevê, pela primeira vez, um pilar de cooperação. Esse pilar será usado, por exemplo, para capacitar as PMEs [pequenas e médias empresas] a se integrarem nessas cadeias e adquirirem tecnologias mais avançadas e voltadas para o futuro”, diz a embaixadora.

Após 26 anos, o acordo entre União Europeia e Mercosul foi assinado no dia 17 de janeiro em uma cerimônia em Assunção, no Paraguai. Aprovada pela Comissão da UE no início do ano, a oficialização do tratado foi considerada uma forma de os dois blocos buscarem autonomia em um mundo cada vez mais dominado por China e Estados Unidos.

Dias depois da assinatura, porém, o Parlamento Europeu aprovou a revisão jurídica do acordo, que deve colocar o texto em uma nova espiral de espera.

Depois de 26 anos de negociação, finalmente o acordo UE-Mercosul foi assinado. O que esse marco representa para as relações entre Europa e América Latina?

Em um mundo de política de poder, o peso geopolítico crescente vem com economias fortes. Nesse contexto, o nosso acordo ganha uma relevância muito atual. Se compararmos os PIBs nominais do ano passado, o bloco UE-Mercosul teria cerca de US$ 25 trilhões: exatamente entre os EUA (US$ 30 trilhões) e a China (US$ 19 trilhões). Isso já diz algo sobre o peso geoeconômico que esse novo bloco pode ter, que deve ser levado a sério. Devemos utilizá-lo também politicamente.

Diante dessas mudanças rápidas nas relações de poder globais, é também do interesse da UE fortalecer laços com potências médias e países emergentes —ainda mais com democracias sólidas como o Brasil. Isso não apenas para contrabalançar superpotências, mas também para distribuir visibilidade global e as chances de ascensão de forma mais justa.

O Parlamento Europeu acaba de encaminhar o acordo à Justiça da UE. É um retrocesso?

Isso pode atrasar a aplicação do acordo —normalmente, quando há encaminhamento ao tribunal, o processo leva algum tempo. A Comissão Europeia, que lamentou a decisão do Parlamento, certamente vai buscar o diálogo com os parlamentares, porque no fim das contas trata-se de convencê-los. E vale lembrar que a decisão foi tomada com uma diferença de apenas dez votos —foi muito apertado, o que mostra que há espaço para conversa.

Quero destacar também que o Mercosul tem mostrado compromisso. Falei com o deputado Nelsinho Trad, que lidera a comissão encarregada de aprovar o acordo no Brasil, sobre a ambição do Mercosul de ratificar o tratado o quanto antes. Essa sinalização é muito relevante, tanto para o Parlamento Europeu quanto para os demais atores europeus. Espero que possamos avançar.

Mas quanto tempo esses processos de ratificação podem levar, tanto na Europa quanto no Brasil?

Acho que depende da ambição política. Pode levar apenas alguns meses —o que seria ótimo— mas, claro, também pode se arrastar. O que percebo é uma vontade maior de fazer esse acordo acontecer, e isso faz muito sentido: queremos ver os benefícios para as populações, para as empresas, para a diversificação comercial. Por várias razões, é importante implementar os benefícios o quanto antes.

O que torna esse acordo particularmente importante para a União Europeia?

Este acordo, para o lado europeu, vai ampliar as oportunidades de investimento. Ele facilita que empresas europeias invistam em cadeias de suprimento estratégicas, incluindo matérias-primas críticas, evitando monopólios de exportação —tudo isso com alto nível de proteção ambiental e trabalhista. E acredito que isso será crucial para impulsionar a transição verde e digital —em ambas as regiões— ao mesmo tempo em que garante cadeias de suprimento mais estáveis e previsíveis.

As negociações começaram em 1999, no auge da globalização. Agora, o tratado foi assinado em um mundo bem mais fragmentado, com protecionismo e guerras comerciais. Como a sra. interpreta o momento e o simbolismo dessa assinatura?

Há quem diga que esse verdadeiro “tsunami” de mudanças geopolíticas foi decisivo para que o acordo saísse. Mas, desde o início desta última rodada de negociações, eu estava convencida de que ele seria concluído de qualquer maneira —porque é claramente um acordo de ganha-ganha. Foi negociado com sensibilidade em relação às necessidades do outro lado. Por isso o texto prevê, por exemplo, períodos de transição para a indústria brasileira ganhar competitividade, além de medidas que permitem às pequenas e médias empresas se adaptarem e se integrarem às cadeias de valor internacionais.

No Brasil há críticos que afirmam que o acordo pode aprofundar o processo de desindustrialização. Qual sua visão sobre isso?

Já temos hoje uma relação de comércio extremamente boa e de benefício mútuo. No ano passado, ultrapassamos pela primeira vez a marca de US$ 100 bilhões em comércio bilateral —e esse comércio é equilibrado, não é uma via de mão única.

Dou como exemplo o setor de aviação. O Brasil exportou mais de US$ 5 bilhões em aeronaves no ano passado —20% disso foi para o mercado europeu. Quando o Brasil exporta aviões para a Europa, está exportando engenharia, inovação e empregos qualificados. E a Europa não está apenas comprando aviões, está integrada ao sucesso aeroespacial brasileiro.

O mesmo vale para investimentos. As empresas europeias já investiram US$ 464 bilhões no Brasil —nenhum outro parceiro externo chega perto desse nível de compromisso de longo prazo. Na indústria de transformação, por exemplo, a Europa é, de longe, o principal investidor estrangeiro, com 44% de todos os investimentos externos no setor. A indústria automotiva mostra isso: no ano passado, o Brasil exportou mais de US$ 10 bilhões em veículos e autopeças, com a Europa como maior investidor estrangeiro por trás dessa base industrial. Essa relação ajudou a construir capacidade de produção, redes de fornecedores e empregos qualificados.

Essa é a história que devemos continuar escrevendo. Devemos nos engajar mais em inovação conjunta, e esse é justamente o objetivo do acordo: incluir ciência, tecnologia, inovação e todos os tipos de benefício econômico mútuo.

O setor industrial brasileiro pode ser considerado um vencedor com esse acordo?

Com certeza. Tenho absoluta convicção de que esse setor será claramente um vencedor. O acordo vai ajudar o Brasil a subir nas cadeias globais de valor, vai aumentar a competitividade brasileira e fortalecer o país como plataforma de exportações industriais —e não apenas como fornecedor de matérias-primas ou produtos agropecuários.

Estamos discutindo uma parceria digital, falando de gestão de dados e focando exatamente nas tecnologias que serão centrais no futuro —inteligência artificial, supercomputadores, entre outras.

E digo isso incluindo as pequenas e médias empresas, não apenas as grandes multinacionais. O acordo prevê, pela primeira vez, um pilar de cooperação. Esse pilar será usado, por exemplo, para capacitar as PMEs a se integrarem nessas cadeias e adquirirem tecnologias mais avançadas e voltadas para o futuro.

Diante do nível de resistência interna na Europa, especialmente de agricultores na França e em outros países, quão estável esse acordo será depois de implementado?

Onde estamos agora é o seguinte: em determinado momento, será necessária a aprovação do acordo no plenário do Parlamento Europeu. Com isso, o processo se completa do lado europeu. Se os países do Mercosul também ratificarem, sinceramente, não vejo o acordo como frágil. Pelo contrário, vejo uma base muito sólida.

Supondo que todos esses obstáculos legais e políticos sejam superados em um prazo relativamente curto, quando os europeus e sul-americanos começam a perceber impactos reais, em fluxos comerciais, preços e investimentos?

Há diferentes períodos para a eliminação de tarifas. Mas o objetivo é eliminar mais de 90% das tarifas dos dois lados. Isso trará benefícios muito claros para ambas as partes. Para o Brasil, estima-se um aumento de R$ 500 bilhões no PIB e R$ 400 bilhões em investimentos ao longo do tempo. Haverá benefícios imediatos, de médio e de longo prazo. Entre os efeitos mais imediatos, veremos produtos mais baratos e mais investimentos. A visibilidade do acordo e o forte apoio do setor empresarial em ambos os lados mostram o interesse existente.


Raio-X

Marian Schuegraf, 63

Erlangen, Alemanha

Durante sua carreira diplomática, serviu como embaixadora alemã na Colômbia, foi vice-chefe de missão na embaixada da Alemanha em Teerã (Irã) e diretora para América Latina e Caribe no Ministério das Relações Exteriores Alemão. Advogada de formação, estudou na Universidade de Erlangen/Nuremberg, na Alemanha, e na Université de Rennes, na França

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