Home » Post: Repórter há mais de 60 anos no jornal é demitido – 06/02/2026 – Economia

Post: Repórter há mais de 60 anos no jornal é demitido – 06/02/2026 – Economia

by Silas Câmara

Pouco tempo depois de começar sua carreira no The Washington Post, Martin Weil aprendeu a ignorar a maioria dos chiados do rádio da polícia. Numa noite de junho de 1972, porém, ele parou ao ouvir isto: “Portas abertas no Watergate”.

Ele decidiu não ir atrás do significado daquelas palavras naquela noite. Mas no dia seguinte, aproximou-se da editoria de cidade para perguntar se havia algo acontecendo. A resposta foi sim —a sede do Comitê Nacional Democrata no complexo Watergate havia sido arrombada.

E o Post, claro, passou a perseguir essa história —e muitas, muitas outras— até alcançar o que a então editora do jornal, Katharine Graham, mais tarde chamou de uma posição de “domínio” na região de Washington.

Na quarta-feira (4), o Post anunciou planos de deixar esse legado para trás com cortes generalizados na redação. As demissões, que atingem mais de 300 dos cerca de 800 jornalistas do jornal, recaem com força sobre a editoria local, onde Weil trabalhava desde 1965. Ele, um dos últimos elos do jornal com a era Watergate, está entre os demitidos.

“Trabalhei lá por 60 anos, e quantas pessoas podem dizer isso sobre qualquer profissão?”, perguntou Weil, que disse ter começado na casa dos 20 anos, mas preferiu não revelar a idade atual. A emoção de ver seu trabalho impresso “nunca desapareceu”, afirmou. “Nunca foi embora. Nunca ficou velho.”

A longa permanência de Weil —ele viu pelo menos sete programas de demissão voluntária irem e virem— atravessou a ascensão e a dissolução do modelo de negócios regional do Post. Enquanto Weil acumulava assinaturas em matérias, o jornal cobria Washington e seus subúrbios com repórteres e colhia receitas publicitárias de concessionárias de automóveis, lojas de departamento e espaços culturais de toda a Grande Washington.

Agora, o veículo adota cada vez mais um modelo de cobertura nacional, como vem defendendo Jeff Bezos, fundador da Amazon, desde que comprou o Post em 2013.

No início dos anos 2000, a editoria metropolitana do jornal tinha cerca de 200 jornalistas, disse Jo-Ann Armao, ex-editora-chefe de notícias locais do Post. Quando uma calamidade acontecia, os repórteres da seção serviam como soldados de infantaria do jornal, espalhando-se pela região e frequentemente entregando trabalhos premiados.

Exemplos incluem a invasão do Capitólio em 6 de janeiro, o massacre da Virginia Tech, os ataques do atirador de elite da Beltway e o 11 de Setembro, quando o Post publicou uma edição especial tardia que incluía um texto de Weil sobre o ataque ao Pentágono.

Na quarta, o número de repórteres da seção encolheu para menos de 20, segundo pessoas com conhecimento dos cortes.

Weil, quando perguntado sobre a ascensão e queda do departamento, respondeu com uma risada. “É como aquela história do rei da França, que tinha 40 mil homens”, disse ele. “Ele os marchou morro acima e depois os marchou morro abaixo de novo.”

Durante a maior parte de sua carreira no Post, Weil trabalhou no turno da noite, uma designação que resultou não de uma ordem da chefia, mas sim da insistência de Weil em ajustar artigos para edições sucessivas do jornal. “Eu dizia: ‘Ah, isso precisa de melhorias'”, recordou.

Assassinatos, roubos e outras atividades criminosas eram pilares do foco regional do Post. “Ao longo dos anos, cobrimos assassinatos, assassinatos duplos, assassinatos triplos, assassinatos quádruplos, um assassinato sêxtuplo no Condado de Prince George, um assassinato sob a cúpula do Capitólio e um assassinato na cafeteria do Washington Post”, disse Weil em comentários aos colegas durante uma celebração de seus 50 anos no jornal. “E depois incêndios: incêndios em mato, incêndios em carros, incêndios em celeiros, incêndios em casas e um incêndio na casa do presidente da Câmara.”

Quando o caos se desenrolava, Weil fazia amplo uso de uma lista telefônica impressa que organizava números de telefone por endereço, a melhor forma de rastrear possíveis testemunhas de crimes. Leonard Downie Jr., ex-editor-chefe do Post, lembrou do discurso de Weil: “‘Alô, fulano, aqui é Martin Weil do The Washington Post. Lamento muito incomodá-lo, mas o senhor sabia que o sujeito da casa ao lado foi assassinado?'”

Também havia espaço para leveza. Há mais de uma década, Weil examinou o layout da segunda edição impressa do jornal e identificou um espaço não preenchido. Então escreveu sobre o clima. Tornou-se um hábito, e suas resenhas meteorológicas —divagações literárias sobre a sociologia das nuvens, chuva e sol— rapidamente lhe renderam um público fiel entre os leitores do Post.

“Mesmo 40 dias após o solstício de inverno, parecia que o gelo e a neve entupindo muitas ruas na área de Washington em camadas, aglomerados e Everests de meio-fio só seriam desalojados pelos cuidados de maquinário pesado”, escreveu Weil no mês passado.

Colegas comumente mencionam uma rotina que ele seguiu por quase todos os seus anos: ele circulava por grande parte da redação —um momento para saudações e conversa fiada— antes de se acomodar em seu trabalho.

Ele também conta histórias, como a vez em 1972 em que saiu do prédio do Post para correr atrás da história de um jovem que havia sido baleado por um policial após supostamente roubar uma bicicleta. Weil acabou diante de um atendente do pronto-socorro do Hospital da Universidade George Washington com o bloco de notas na mão. “Onde eles estão?”, perguntou Weil.

O atendente apontou para um par de portas vai e vem. A cena atrás daquelas portas —luzes fortes, uma grande equipe de pessoal médico, um cirurgião lutando para manter a vítima viva— assustou Weil, que esperava encontrar um corredor cheio de detetives.

“Isso não parece bom, não é?”, ele lembrou ter dito à pessoa ao seu lado.

O comentário o levou ao escritório de segurança do hospital, onde o plantonista ameaçou prendê-lo. Esse é um relato em primeira mão que ele nunca colocou no jornal.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment