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Blankfein: prepare-se para nova crise financeira – 02/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

Lloyd Blankfein tem um conselho para qualquer pessoa que tema que um acerto de contas financeiro esteja no horizonte: planeje-se como se ele estivesse vindo.

Blankfein, que liderou o Goldman Sachs durante a crise financeira de 2008, disse que comandar o banco de investimentos era uma questão de planejamento de contingência e ser brutalmente honesto sobre quanto os ativos realmente valem.

“Eu estaria marcando a mercado de forma muito agressiva, fazendo as pessoas venderem certas coisas que, mesmo sendo líquidas, apenas para ter certeza de que você conseguiria”, disse ele ao FT em uma entrevista em seu apartamento no Upper West Side de Nova York.

Os comentários de Blankfein, 71 anos, vêm em meio a crescentes preocupações sobre a disrupção econômica causada pela inteligência artificial e os padrões de subscrição em muitos credores não bancários, que proliferaram nas últimas duas décadas.

Ele disse que a falta de uma grande “sacudida” desde 2008 significa que as pessoas “não estão tão assustadas” e “ficaram mais complacentes”.

“Quanto mais tempo passa entre os acertos de contas, maior o potencial para um acerto de contas mais severo”, disse Blankfein. “Não estou dizendo que vai acontecer amanhã ou de que direção virá. Mas quando algo explodir, você vai encontrar todos os ativos que foram mantidos a preços que não podem ser realizados no mercado.”

Oito anos após deixar o Goldman, Blankfein lança neste mês suas memórias, Streetwise: Getting To and Through Goldman Sachs. O livro traça sua improvável ascensão de conjuntos habitacionais populares do Brooklyn até comandar uma das instituições financeiras mais importantes do mundo. A Forbes estima seu patrimônio líquido em cerca de US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 8,8 bilhões, hoje).

Blankfein disse que inicialmente começou a anotar sua história de vida para seus três filhos, que cresceram cercados de privilégios que seriam impensáveis para o jovem Blankfein.

Mas depois de completar cerca de um terço, ele pausou por vários anos antes de retomar a escrita. Seu objetivo mais amplo era desmistificar o Goldman e mostrar que um caminho até o topo é mais alcançável do que as pessoas imaginam.

“Conheci algumas pessoas na minha vida que eram tão inteligentes que eu nem conseguia entender como elas viam o mundo”, disse Blankfein, citando Elon Musk e Warren Buffett. “Mas na maioria das vezes, as pessoas não são tão extraordinárias. Elas apenas tiveram sorte, estavam no lugar certo na hora certa. Trabalharam mais. E talvez até mais inteligentes, mas não uma ordem de magnitude mais inteligentes. Apenas um pouco mais inteligentes.”

Blankfein entrou em Harvard aos 16 anos e começou como advogado tributarista antes de decidir migrar para o setor financeiro. Inicialmente foi rejeitado pelo Goldman, mas entrou pela porta dos fundos como vendedor de commodities na J Aron, que o Goldman adquiriu em 1981.

Streetwise é escrito com o humor mordaz e autodepreciativo pelo qual Blankfein ficou conhecido em Wall Street. Ele chama seu comentário de 2009 ao Sunday Times de que estava “fazendo o trabalho de Deus” de um “ato falho lloydiano”. A piada grudou em Blankfein e no Goldman desde então.

O livro está cheio de detalhes para os kremlinologistas do Goldman: o choque cultural entre os refinados goldmanitas e os combativos traders da J Aron, as brigas no topo entre Hank Paulson e Jon Corzine, os sócios agonizando sobre abrir o capital do Goldman, a ausência de liderança de John Thornton após os ataques de 11 de setembro, e as saídas repentinas de Stephen Friedman e Jon Winkelried durante várias crises.

“Na maioria das vezes, essas pessoas são, em geral, meus heróis. E heróis também têm falhas”, diz ele. “Nem todo mundo é maravilhoso em todo contexto.”

O drama principal em Streetwise é a crise financeira de 2008, um colapso de mercado que céticos ainda acreditam que o Goldman contribuiu e do qual lucrou. Blankfein rejeita essas acusações.

Ele assumiu como CEO do Goldman em 2006, depois que Paulson saiu para se tornar secretário do Tesouro no governo de George W. Bush. Blankfein escreve sobre sua crise começando em 2007, estudando o P&L diário do Goldman enquanto estava no cinema assistindo Duro de Matar 4.0. Ele notou uma queda em um fundo hedge administrado pelo Goldman.

Isso deu início a mais de um ano de gestão de risco e verificação dos preços dos ativos que o Goldman mantinha. A visão de Blankfein é que a crise teria sido muito menos severa se mais gente em Wall Street tivesse pensado como o Goldman.

Os bancos de investimento rivais Bear Stearns e Merrill Lynch tiveram que se fundir com outros bancos, enquanto o Lehman Brothers colapsou na maior falência da história dos EUA.

“Eles não teriam acumulado tantos ativos ruins em seus balanços a ponto de não conseguirem vendê-los”, diz Blankfein. “Enquanto nós estávamos constantemente desafiando nossos traders a vender no mercado, para ver qual era o verdadeiro valor e qual era a taxa de mercado para o que eles estavam acumulando.”

Blankfein em grande parte defende a resposta do governo à crise como uma que foi necessária para restaurar a saúde do sistema bancário, mesmo que muitos cidadãos comuns tenham criticado as políticas como favorecendo Wall Street em detrimento da população em geral.

“Eles não estavam tentando resgatar [os bancos]. Eles estavam tentando endireitar a economia”, diz ele.

Blankfein ocupa um lugar incomum na história do Goldman. Seu legado está garantido por sua gestão durante a crise. Mas ele é uma exceção por não ter um segundo ato após deixar o banco de investimentos.

Seus predecessores frequentemente fizeram a transição para o serviço público, como Paulson e Bob Rubin como secretários do Tesouro ou Corzine sendo eleito senador de Nova Jersey e depois governador.

Blankfein vê o momento de sua saída em 2018, durante a segunda metade do primeiro mandato de Trump, como não propício para um cargo no governo. Ele diz que foi sondado ao longo dos anos sobre concorrer a prefeito de Nova York, mas nunca considerou seriamente uma candidatura.

“Em toda colmeia há uma abelha rainha que fica muito tempo enquanto todos os outros zangões e tudo mais vêm e vão”, diz ele. “Eu era essa pessoa [no Goldman]. Fiquei muito tempo.”

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