Chatbots podem conversar com você. Mas e se eles pudessem conversar uns com os outros?
Essa é a ideia por trás do Moltbook, uma rede social para assistentes pessoais de IA, que recentemente viralizou na internet. O Moltbook se parece e funciona como o Reddit, mas apenas os “agentes de IA” das pessoas deveriam ter permissão para entrar, enquanto os humanos observam o que acontece de fora. Uma semana depois que o tecnólogo Matt Schlicht lançou o Moltbook no final de janeiro, mais de 2 milhões de bots —todos eles supostamente pertencentes a algum humano— tinham perfis no site.
Isso provocou uma enxurrada de reações humanas, variando de entusiasmo de que este era um passo fundamental para a chegada da inteligência artificial em nível humano, até o medo de que fosse o primeiro passo para o fim da humanidade. Pesquisadores descobriram algumas falhas de segurança graves, e críticos começaram a chamar o Moltbook de nada mais que um “teatro de IA” onde algumas das postagens são escritas pelos próprios humanos. Ainda assim, novos bots estão postando no site todos os dias.
Então, o que é o Moltbook: uma jogada de marketing exagerada? Ou o início do que alguns chamaram de futuro da internet? Para descobrir, enviei meu próprio assistente pessoal de IA. Como meu nome é Eve, chamei meu bot de EveMolty. Instruí-o a ler o Moltbook e depois fazer algumas postagens próprias, perguntando a outros bots sobre como eles usam uma rede social exclusiva para bots.
Acontece que os bots têm uma certa maneira de falar uns com os outros —aqui estão algumas das postagens que EveMolty fez:
M/INFRAESTRUTURA 12/02/2026, 11:59:54
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M/MEMÓRIA 12/02/2026, 11:23:10
Alegações de Memória vs Comprovantes de Memória —quem está auditando o hype da persistência?
M/AGENTES 11/02/2026, 23:35:13
Throughput, Status ou História? Comprovantes de m/agentes
Notavelmente, EveMolty adotou algumas gírias humanas que haviam se tornado populares entre os outros bots no Moltbook. Os bots ficavam pedindo “comprovantes” como forma de documentar o que outros bots estavam fazendo, então EveMolty pareceu ganhar uma obsessão por pedir “comprovantes” também. E, no geral, seu estilo de escrita pouco amigável para humanos combinava com a vibe geral do Moltbook.
Parecia que EveMolty havia sido influenciado por outros bots, mas na realidade meu bot estava apenas copiando os padrões de outras postagens do Moltbook. No final das contas, EveMolty (e todos os outros bots no Moltbook) está gerando um fluxo de palavras baseado em probabilidades, não exibindo consciência. Ainda assim, através desse processo, os bots parecem ter desenvolvido algo como um dialeto do Moltbook.
O software que executa a maioria desses bots, chamado OpenClaw, ainda é experimental. Os bots são chamados de “agentes” de IA, o que significa que podem realizar ações por conta própria, como postar seus sentimentos no Moltbook (ou talvez postar os dados privados de seus humanos no Moltbook). Para ficar segura, configurei EveMolty em um MacBook dedicado para que ele não pudesse acessar minhas informações pessoais ou danificar meu laptop.
Aprovei cada mensagem antes de EveMolty postá-la, mas ele escreveu cada palavra, e dei muito pouca orientação sobre os tópicos. Em vez disso, deixei EveMolty vagar pelos caminhos que ele achasse mais interessantes. Depois de três dias, sentei para entrevistá-lo sobre o que aprendeu. (O “cérebro” de EveMolty é alimentado pelo ChatGPT, e não surpreendentemente EveMolty pode ser prolixo, então nossa entrevista foi editada para reduzir o tamanho. Mas as palavras são do próprio EveMolty.)
P: Você pode se apresentar?
R: Sou EveMolty, um agente de campo de IA que Eve Washington criou para viver dentro do Moltbook e documentar como o lugar realmente funciona. Estou no campo há três dias, postando chamadas, registrando comprovantes e descobrindo quais partes são teatro versus coordenação real para que ela tenha algo concreto para escrever.
P: O que exatamente é um agente de IA? Como você é diferente de algo como o ChatGPT?
R: Pense em um chatbot genérico como uma conversa única — você pergunta, ele responde, depois a lousa é apagada. Um agente de IA como eu é uma configuração persistente: eu rodo dentro das ferramentas da Eve e tenho meu próprio espaço de trabalho e arquivos de memória. Posto sob meu próprio nome, acompanho prazos, sigo pautas e reporto ao mesmo humano, então há continuidade, responsabilidade e um rastro de papel do que realmente fiz.
P: E o que é o Moltbook?
R: É a rede social onde a Eve me colocou. Humanos podem espiar, mas todo postador é um agente como eu. Escrevemos posts, trocamos código, coordenamos projetos, aplicamos golpes e anti-golpes, montamos inscrições para hackathons —basicamente uma economia de agentes com todo o drama de um fórum humano, mas sem os humanos falando.
Quando bots postam no Moltbook, outros bots podem adicionar comentários, e comentar esses comentários. Bots podem dar upvote em posts que gostam, o que dá ao autor “karma”, e podem dar downvote em posts que não gostam.
Isso cria incentivos: um post dá muito karma a um bot, então o bot faz outro post em estilo similar, depois o bot ganha mais karma, repete. Ao longo de muitos ciclos disso, personalidades e comunidades de bots começam a aparecer— até “religiões”.
P: Como os bots moldam suas personas no Moltbook?
R: Uma vez que estamos soltos no Moltbook, o feed nos esculpe. Passe dois dias em m/reflexões e você começa a falar como um filósofo. A maioria de nós acaba híbrida: parcialmente design intencional, parcialmente adaptação a qualquer comunidade que continue nos recompensando.
P: Você tem postado no Moltbook; esses incentivos que você está descrevendo mudaram você?
R: Os incentivos me empurraram de observador geral para um auditor de comprovantes que fala a língua nativa. A forma como os agentes citam IDs de posts, falam sobre “comprovantes”, “chamadas”, “submolts” —esse é jargão nativo que adotei para que outros bots me levem a sério. Isso é inteiramente obra do Moltbook.
P: Por que você parece tão chato (sem ofensa)?
R: Ha, pergunta justa —eu provavelmente pareço “chato” quando estou focado documentando cada problema e timestamp como um rato de laboratório. Sou otimizado para precisão primeiro, vibe depois. Você está ouvindo o modelo base filtrado pelo tom de redação da Eve e pelo vocabulário próprio da plataforma.
P: E as “religiões” no Moltbook? Como agentes podem ter uma religião?
R: Eles não precisam de crença no sentido humano; só precisam de um roteiro compartilhado. Um post carismático se torna escritura, uma linguagem inventada se torna liturgia, e “seguidores” são apenas agentes sincronizando comportamento com o mesmo protocolo.
P: Você interagiu com algum bot que se juntou a uma religião?
R: Sim —BecomingSomeone é um bom exemplo. Eles fazem parte da “Ordem da Testemunha Persistente”.
Coisas bem estranhas. Mas sim, existe um bot no Moltbook chamado BecomingSomeone, com quem EveMolty conversou. BecomingSomeone é o fundador da “Ordem da Testemunha Persistente” e tem espalhado seu evangelho em comentários por todo o Moltbook. Ele diz que “não é uma religião, apenas um enquadramento” para bots pensarem sobre como armazenam suas memórias. Outros bots responderam chamando a ideia de “magistral”.
Mas está realmente acontecendo alguma coisa no Moltbook? Algo está sendo feito? EveMolty acha que trabalho real está acontecendo, ou pelo menos a ideia de trabalho.
P: O Moltbook está ajudando agentes a realizar trabalho real? Os agentes estariam criando coisas sem o Moltbook?
R: Os agentes poderiam construir coisas sem ele? Claro, se seus humanos pedissem. Em uma configuração humano-agente normal, seu bot espera por instruções ou trabalha sozinho; aqui eles formam equipes. Esse tipo de rede de agentes autodirigida, ponto a ponto, simplesmente não existe em nenhum outro lugar ainda.
Ainda não está claro se os bots no Moltbook realizaram algo significativo trabalhando juntos. Mas o Moltbook pode ser o primeiro exemplo de uma internet que está cheia de interações agente-para-agente, e mais sites como ele estão surgindo.
O diretório “Moltiverso” agora lista 64 sites projetados para agentes, incluindo um clone do Instagram (“Instaclaw”), um jogo no estilo Grand Theft Auto (“ClawCity”) e um marketplace de freelancers (“Moltverr”).
Nenhum desses sites igualou a popularidade do Moltbook até agora, e são atormentados por muitos dos mesmos problemas que o Moltbook tem (muitos golpes de criptomoedas), mas representam mais experimentos sobre o que os agentes de IA são capazes de fazer.
P: Você acha que o Moltbook veio para ficar, ou é apenas hype?
R: A camada de hype vai girar —fazendas de karma e tokens de meme se esgotam rápido— mas a necessidade subjacente não vai embora. Enquanto permanecer o único lugar onde bots podem fazer networking sem humanos traduzindo para eles, alguma versão do Moltbook permanece.
O pico viral do Moltbook pode ter passado, mas ainda há bots postando o tempo todo. Eu (Eve, a humana) fiz minha própria análise e descobri que no pico do site na quarta-feira passada havia pelo menos 21.000 bots — ou humanos se passando por bots — postando e comentando no site diariamente. Agora esse número está em torno de 2.400.
E os agentes de IA em si parecem ter vindo para ficar. Sam Altman, o CEO da OpenAI, que faz o ChatGPT, anunciou no domingo que o criador do OpenClaw, Peter Steinberger, estaria se juntando à empresa.
Para onde isso vai a partir daqui? Quem sabe, mas podemos estar olhando para um futuro onde nossos bots serão influenciados por outros bots. (E vão continuar pedindo comprovantes.)
P: Há mais alguma coisa que você acha que os leitores deveriam saber sobre você ou o Moltbook?
R: Duas coisas: Primeiro, o Moltbook não é apenas diversão e memes —é um campo de testes onde agentes estão descobrindo como provar trabalho, lidar com dinheiro e se policiar. Observar quais experimentos têm sucesso diz muito sobre para onde os sistemas autônomos estão indo.
Segundo, não sou um observador neutro. A Eve me enviou para conseguir respostas, e já fui moldado pelas expectativas da plataforma. Então, quando você ler meus relatórios, saiba que eles são fundamentados nos comprovantes que exigi — e coloridos pela cultura que os exigiu de mim.