Home » Aves entram em declínio em áreas mais quentes dos EUA – 04/03/2026 – Ambiente

Aves entram em declínio em áreas mais quentes dos EUA – 04/03/2026 – Ambiente

by Silas Câmara

As aves nos Estados Unidos não estão apenas em declínio, mas estão em declínio mais acelerado, especialmente em áreas de agricultura intensiva, de acordo com uma nova pesquisa. As quedas gerais na população de aves, medidas de 1987 a 2021, foram mais acentuadas em áreas quentes e em aquecimento, sugerindo que as mudanças climáticas podem ter um papel nisso.

O estudo, publicado na revista Science, mostra apenas correlação com agricultura intensiva e temperatura, não causalidade. Ele não considera outras circunstâncias que podem estar afetando as aves ao longo das rotas migratórias ou durante a invernada. Mas se soma a um conjunto cada vez mais robusto de evidências de que as aves —alguns dos animais mais bem monitorados do planeta e um indicador da saúde de outras espécies— não estão bem.

Quaisquer que sejam os fatores específicos, as perdas aceleradas fazem sentido dado o foco da sociedade no crescimento econômico, que frequentemente tem um custo para o mundo natural, disse Peter P. Marra, ornitólogo e reitor da Universidade Georgetown, especializado em populações de aves, que não participou da nova pesquisa.

“O sonho americano se transforma em pesadelo americano quando começamos a olhar para o que estamos fazendo com a biodiversidade e os sistemas dos quais dependemos como seres humanos”, disse ele.

Em 2019, Marra e uma equipe de cientistas publicaram descobertas marcantes de que o número de aves nos Estados Unidos e no Canadá havia caído em 2,9 bilhões, ou 29%, desde 1970.

O novo estudo, da última quinta-feira (26), se baseou em uma das mesmas fontes de dados, o North American Breeding Bird Survey (levantamento norte-americano de aves reprodutoras), um projeto de monitoramento liderado em parte pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos. Observadores contam aves ao longo de rotas designadas de aproximadamente 40 quilômetros cada uma.

Para analisar as taxas de declínio, a nova pesquisa foi limitada a 1.033 rotas que ofereciam contagens anuais ou quase anuais, e acabou incluindo 261 espécies de aves.

Em 1987, a equipe apontou, cada rota tinha em média 2.034 aves. Em 2017, essa média havia diminuído em 304 aves por rota, ou 15%.

As perdas mais acentuadas foram observadas na Flórida, Texas, Louisiana e Arizona. De modo geral, elas se correlacionaram com lugares quentes e, em menor grau, com lugares que registraram aumento de temperatura nos últimos 30 anos.

Os pesquisadores também descobriram que os declínios de aves se aceleraram ao longo do tempo. Em média, cada rota perdeu o equivalente a um quarto de ave a mais por ano em comparação com o ano anterior.

Embora essa mudança possa parecer pequena, declínios acelerados podem rapidamente se multiplicar. Por exemplo, uma rota de 40 quilômetros que perdia cerca de 10 aves por ano, no início, estava perdendo cerca de 19 aves anualmente ao final do período de 34 anos, disse François Leroy, pesquisador de pós-doutorado em macroecologia na Universidade Estadual de Ohio e autor principal do estudo.

Quando a equipe analisou e mapeou as taxas de declínio, pontos críticos de aceleração se destacaram na Califórnia, no centro-oeste e na região do Atlântico Médio.

“Ficamos bastante surpresos ao ver esses padrões”, disse Leroy.

A equipe decidiu adicionar análises mais aprofundadas, usando modelagem estatística para buscar associações. Entre 20 métricas, eles analisaram uso de fertilizantes, uso de pesticidas e área de terras cultivadas.

“O que descobrimos é que qualquer métrica de intensidade agrícola era sempre o melhor preditor de aceleração do declínio.”

Mas os próprios autores e cientistas que não participaram do trabalho enfatizaram que mais estudos são necessários para determinar o que realmente está causando as perdas.

“Queremos ser muito cuidadosos aqui”, disse Marta Jarzyna, uma das autoras e professora na Universidade Estadual de Ohio, especializada em macroecologia. “É muito difícil realmente identificar o mecanismo de mudança com um estudo correlativo de grande escala, em escala continental, como o nosso.”

Em 2023, um estudo sobre aves europeias tentou fazer isso, indicando que a intensificação agrícola, em particular o uso de pesticidas e fertilizantes, é o principal fator para a maioria dos declínios populacionais, especialmente em aves que se alimentam de invertebrados como insetos.

Muitos cientistas acreditam que problemas no mundo dos insetos, onde os declínios são muito mais difíceis de quantificar, estão criando problemas para as aves. A maioria das espécies de aves terrestres na América do Norte depende de insetos em algum momento de seus ciclos de vida, frequentemente quando são jovens.

Um estudo revelou que os 2,9 bilhões de aves perdidas desde 1970 vieram de espécies que dependiam de insetos. Aquelas que não dependiam de insetos, na verdade, aumentaram em 26 milhões, uma diferença de 111 vezes, segundo o estudo.

Mas há muitas outras pressões enfrentadas pelas aves. Elas são devoradas por gatos, colidem com janelas de vidro durante a migração e enfrentam perda de habitat. As mudanças climáticas estão afetando insetos, aves e o timing dos ciclos naturais.

Em um ponto positivo da pesquisa, descobriu-se que as populações de aves que habitam florestas estavam estáveis ou aumentando, talvez relacionado a uma expansão de habitat à medida que terras agrícolas não utilizadas em certas áreas voltam a ser matas.

Morgan Tingley, ornitólogo e ecólogo quantitativo da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), elogiou o uso de modelagem estatística sofisticada no estudo, particularmente na identificação dos declínios acelerados.

“Embora este estudo não seja definitivo sobre as causas”, disse Tingley, “ele pelo menos sugere, de forma bastante convincente, que não é apenas uma coisa”.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment