A guerra no Oriente Médio elevou os preços do gás europeu ao maior patamar desde 2023 no início desta semana, deixando o continente diante de mais uma crise energética quatro anos após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Com o transporte marítimo pelo estreito de Ormuz praticamente paralisado e os ataques iranianos ao Qatar forçando o segundo maior fornecedor mundial de GNL (gás natural liquefeito) a interromper a produção, os preços do gás europeu subiram 70% desde sexta-feira (27).
“É um golpe duplo. A Europa mal está saindo de uma crise energética industrial e agora temos a próxima”, disse Henning Gloystein, especialista em energia do Eurasia Group.
Na quarta-feira, um navio-tanque de gás natural liquefeito originalmente com destino à França tornou-se a primeira carga no Oceano Atlântico a ser redirecionada para a Ásia, sinalizando a escalada da competição das economias asiáticas para garantir suprimentos.
O BW Brussels, carregado com GNL da Nigéria, fez uma inversão de rota em direção ao sul, rumo ao Cabo da Boa Esperança, segundo a Kpler, uma provedora de inteligência de commodities.
O aumento da competição por cargas de GNL ocorre em um momento em que um inverno particularmente rigoroso esgotou as reservas de gás europeias.
“Os estoques nunca estiveram tão baixos nesta época do ano”, disse Simeone Tagliapetra, pesquisador sênior do think-tank Bruegel. “O reabastecimento dos estoques de gás para o próximo inverno começa agora. Se isso tiver que acontecer a esses preços, será um fardo enorme para a Europa.”
O armazenamento em todo o bloco está abaixo de 30% da capacidade, segundo dados da Gas Infrastructure Europe, em comparação com uma média de cinco anos de cerca de 45% para esta época do ano.
As reservas em países como Holanda, Suécia, Croácia e Letônia estão especialmente baixas.
Um funcionário da UE disse que seria possível reabastecer os estoques a 90% antes do próximo inverno e afirmou que os Estados-membros não solicitaram medidas coordenadas para limitar os preços durante uma reunião na manhã de quarta-feira.
O primeiro-ministro holandês, Rob Jetten, insistiu na terça-feira que a Holanda não corria risco de ficar sem gás, embora tenha dito que estava preparando medidas de apoio, sem especificá-las. O “foco principal é reabastecer as reservas de gás o mais rápido possível”, disse ele.
Desde 2022, a UE (União Europeia) diversificou seus fornecedores e não depende mais do gás russo, passando a importar quantidades muito maiores de gás americano e obtendo mais suprimentos da Noruega.
A Europa obtém apenas cerca de 10% de seu GNL do Qatar. Mas se a competição por suprimentos em outros lugares continuar a elevar os preços, a inflação pode subir e estrangular o crescimento econômico, especialmente na Itália e na Alemanha, que são mais dependentes das importações de GNL.
Mesmo antes da alta dos preços do gás desta semana, a inflação anual na Zona do Euro subiu para 1,9% em fevereiro, acima do esperado.
O economista-chefe do Banco Central Europeu, Philip Lane, alertou que uma guerra prolongada no Oriente Médio poderia causar “um pico substancial na inflação impulsionada pela energia e uma queda acentuada na produção”, embora os preços do gás europeu, em torno de 54,50 euros por megawatt-hora, permaneçam bem abaixo do pico de 340 euros/MWh alcançado em 2022.
Uma opção extrema para reforçar os suprimentos de gás europeus seria estender as importações da Rússia, especularam analistas da Rystad. A UE estava programada para implementar gradualmente uma proibição das importações de GNL russo a partir de abril, começando com contratos de curto prazo e depois abrangendo todos os contratos até o final do ano.
Mas a proposta seria politicamente explosiva e também enfrentaria oposição dos EUA, que aumentaram as exportações de GNL para a Europa desde a redução do fornecimento russo, tornando-a “extremamente improvável”, disse a Rystad.
Na quarta-feira (4), o presidente russo Vladimir Putin ameaçou cortar os suprimentos russos antes da proibição da UE, embora tenha dito que estava apenas “pensando em voz alta”.
Se a situação continuar, analistas esperam que os governos nacionais recorram a outras medidas para enfrentar os preços, embora muitas opções os coloquem em conflito direto com as ambições climáticas da Europa.
As concessionárias poderiam fazer uma mudança de curto prazo do gás para o carvão em algumas usinas, como a Alemanha fez durante a crise energética de 2022, disseram tanto Gloystein quanto Tagliapetra.
A Europa também pode acionar uma alavanca energética específica que faltava após a invasão da Ucrânia pela Rússia: a frota nuclear francesa.
Aproximadamente metade dos 56 reatores nucleares franceses operados pela EDF em 2022 teve que ser fechada para inspeções e substituição de tubos após um problema com rachaduras, levando a produção aos níveis mais baixos em vários anos. Isso forçou a França a importar eletricidade, frequentemente de países que usavam gás para gerá-la.
A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni já havia proposto, antes da guerra no Irã, reduzir as contas de energia removendo o preço do carbono dos preços de eletricidade no atacado, em resposta à pressão da indústria italiana.
Embora essa medida esteja sob escrutínio da Comissão, Peter Liese, deputado alemão que trabalhou em política climática, disse esperar que a Comissão mostre moderação na aplicação de suas regras de auxílio estatal caso os preços altos continuem. “A Europa sempre foi flexível em tempos de crise”, disse ele.
Outra opção seria adiar uma extensão planejada do sistema de comércio de emissões da Europa, seu principal esquema para elevar os preços do carbono.
Bruxelas está preparando medidas para acabar com as permissões gratuitas de carbono para a indústria pesada como parte de suas ambições de incentivar a economia verde e alcançar emissões líquidas zero de carbono até 2050, mas enfrenta forte resistência da indústria. A guerra no Oriente Médio fortalece esses apelos.
Um porta-voz da produtora alemã de fertilizantes SKW Piesteritz disse que os preços em alta eram um “alerta” para a Europa, acrescentando que “os encargos sobre os produtores europeus de fertilizantes devem ser reduzidos, por exemplo, isentando a produção de amônia do sistema de comércio de emissões da UE”.
Embora autoridades tenham dito que nenhuma ação imediata estava planejada para enfrentar os preços altos, o tema está na agenda de próximas reuniões em Bruxelas, incluindo quando o chefe da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, participará de uma discussão sobre política energética com a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, na sexta-feira.
Vários funcionários disseram que a mais recente alta nos preços de energia mostrou a necessidade de um foco renovado na eletrificação; na construção de infraestrutura de rede e fontes de energia mais limpas para reduzir a extensão em que o gás determina os preços.
A situação como um todo ressaltou a necessidade de reforçar a autossuficiência energética da própria Europa, argumentou Liese.
“Deixa claro que precisamos continuar a ser menos dependentes de combustíveis fósseis. Este é mais um exemplo de que, onde quer que você dependa de combustíveis fósseis, está sempre sujeito a desafios de preços”, acrescentou.