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China entra na guerra do delivery de R$ 110 bi no Brasil – 15/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

O setor de comida por entrega no Brasil, avaliado em R$ 110 bilhões, mergulhou em acusações de espionagem corporativa e táticas obscuras, à medida que a concorrência se intensifica após a chegada de rivais apoiados pela China em busca de uma fatia do maior mercado consumidor da América Latina.

O aplicativo brasileiro de entrega de refeições iFood e a chinesa Keeta, de propriedade da gigante de entregas Meituan, afirmam ter sido alvo de atividades desleais no último ano, que foram investigadas pela polícia.

O CEO do iFood, Diego Barreto, disse ao Financial Times que identificou um “esforço coordenado” para roubar segredos comerciais de sua empresa e obter vantagens de mercado injustas. Ele alega que os incidentes começaram por volta da época em que duas concorrentes chinesas anunciaram planos de entrar no mercado brasileiro.

Com uma população altamente conectada de mais de 200 milhões de pessoas, adoção em massa de pagamentos digitais e exércitos de motoboys, o Brasil emergiu como foco principal na expansão global das empresas de tecnologia chinesas. Keeta e 99, cuja controladora é o maior aplicativo de transporte por aplicativo da China, a Didi, lançaram serviços no ano passado —desafiando a longa dominância do iFood.

“Vejo uma coincidência muito grande que me faz acreditar que existe uma conexão”, disse Barreto. “Vejo uma tentativa de sabotagem por alguém. Não posso dizer quem é esse alguém, mas posso dizer que consultorias estrangeiras estão atuando como intermediárias.”

A batalha pelo mercado de delivery de comida no Brasil é um teste da capacidade da China de exportar seus campeões tecnológicos para grandes mercados emergentes. Com bilhões de reais prometidos, a maior economia da América Latina se tornou um campo de provas de como essa expansão é conduzida.

Consultorias estrangeiras usando “táticas suspeitas e agressivas” contataram funcionários do iFood pelo LinkedIn buscando dados privados sobre as operações do grupo, segundo Barreto, às vezes oferecendo centenas de dólares para participar de entrevistas.

A empresa disse ter identificado cerca de 500 abordagens. Mensagens aos funcionários incluíam perguntas sobre margens de lucro, receitas, novas áreas de negócio e tecnologia, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

“Esta não é uma prática comum de mercado. É claramente uma tentativa de extrair dados e informações sensíveis do iFood, como nossas estratégias de precificação. Isso é espionagem corporativa —roubo de propriedade intelectual desenvolvida aqui no iFood, no Brasil”, disse Barreto.

O CEO da Keeta, Tony Qiu, disse ao Financial Times que a empresa não realiza o tipo de práticas que estão no centro das reclamações do iFood.

“Mantemos um padrão muito alto de comportamento ético e legal, então não estamos envolvidos nesse tipo de atividades que eles alegam. E, na verdade, até agora não recebemos nenhuma acusação ou processo de nenhuma empresa”, afirmou.

Enquanto isso, Qiu alegou que a Keeta também pode ter sido vítima de ações desleais. No dia seguinte ao seu lançamento em Santos, em outubro passado, ele disse que um grupo de oito a dez pessoas visitou vários restaurantes “fingindo ser funcionários da Keeta”.

“Eles pediram aos proprietários que mostrassem os sistemas da Keeta, então tiraram muitas fotos, vídeos e até desativaram algumas contas na Keeta”, disse Qiu, acrescentando que a polícia estava investigando.

Alguns funcionários da Keeta também foram abordados por consultorias buscando opiniões sobre o setor e suas operações, disse Qiu. No entanto, a empresa não identificou nenhum funcionário que tenha aceitado os pedidos.

Os investimentos da 99 e da Keeta —que prometeram um total combinado de R$ 7,6 bilhões como parte de sua entrada no mercado— foram celebrados pelo governo de esquerda do Brasil, que tem buscado uma relação mais próxima com a China. Isso ocorre paralelamente ao investimento do iFood de R$ 17 bilhões nos 12 meses até março.

O total de pedidos feitos por aplicativos de delivery de comida foi estimado em R$ 110 bilhões em 2025, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, ante R$ 91 bilhões no ano anterior.

Maurício Morgado, professor do centro de estudos de varejo da Fundação Getúlio Vargas, disse que a concorrência adicional foi bem recebida por alguns restaurantes e motoboys insatisfeitos com o iFood, cuja participação de mercado estimada em 80% equivalia a um “monopólio”.

“É uma briga empolgante. O iFood vai enfrentar uma batalha de verdade contra os chineses”, acrescentou Morgado, descrevendo as ofertas promocionais subsidiadas da Keeta e da 99 como “muito agressivas”.

No entanto, tentativas de desbancar a empresa brasileira dominante de entregas já fracassaram antes. O Uber Eats se retirou do país em 2022, um ano antes de a 99Food originalmente sair.

Desta vez, a disputa gerou investigações criminais. Após denúncias do iFood, a polícia investigou pelo menos quatro de seus ex-funcionários suspeitos de roubo ou compartilhamento não autorizado de dados da empresa, segundo documentos judiciais vistos pelo Financial Times.

Um dos casos foi arquivado. A investigação mais recente não havia sido reportada anteriormente. O iFood, cuja controladora é o grupo de tecnologia Prosus, listado na Holanda, disse que não comenta casos jurídicos em andamento.

De acordo com documentos judiciais sigilosos vistos pelo Financial Times, três dos ex-funcionários do iFood investigados pela polícia foram trabalhar na 99. Mandados de busca e apreensão ordenados por juiz foram cumpridos em outubro em endereços ligados a duas das pessoas. Em ambos os casos, os policiais apreenderam dispositivos eletrônicos, com exames forenses em andamento.

Um dos ex-funcionários alvo das buscas é suspeito de ter baixado dados sobre 4.900 restaurantes e enviado para um e-mail pessoal, mostram os documentos. A outra pessoa havia sido contatada por uma consultoria na China, que lhe enviou uma lista de perguntas sobre o iFood e agendou uma entrevista por vídeo, segundo documentos judiciais.

Ele disse à polícia que recebeu um pagamento de cerca de US$ 1.400 e que, embora não tivesse certeza, acreditava que um participante não identificado na reunião virtual era um executivo da Meituan, com base no fato de o iFood ter alertado seus funcionários sobre a possibilidade de o grupo chinês tentar recrutá-los.

Qiu disse que a Keeta nunca trabalhou com a consultoria em questão. A Meituan disse que contratou a consultoria “há vários anos para estudos setoriais, uma prática comum que segue todos os padrões de mercado e cumpre os requisitos legais”. Keeta e Meituan declararam “seu total compromisso com as melhores práticas de mercado” e disseram estar “dispostas a cooperar com as autoridades sempre que necessário”.

Um proprietário de restaurante disse ao Financial Times que foi contatado por representantes da 99, que tinham detalhes específicos sobre seu contrato com o iFood.

Separadamente, o iFood moveu ações na Justiça do Trabalho contra ex-funcionários por suposta violação de cláusulas de não concorrência, segundo pessoas a par do assunto.

A 99 disse que “não tolera nem endossa nenhuma forma de má conduta envolvendo o uso de dados externos obtidos por meios ilegais”.

“Nossa operação é guiada por um rigoroso Código de Conduta, com políticas comunicadas periodicamente a todos os funcionários por meio de treinamento, monitoramento e responsabilização.”

E acrescentou: “A 99Food está desafiando o mercado de delivery de comida no Brasil e se tornou uma alternativa real para restaurantes, entregadores, consumidores e profissionais, ganhando maior visibilidade e relevância, o que naturalmente aumenta a atenção às nossas estratégias.

“Estamos confiantes de que nossas práticas cumprem todas as leis e regulamentos aplicáveis, permitindo-nos continuar transformando este setor dentro de parâmetros éticos e legais.”

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