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Quando as redes sociais são cúmplices – 16/03/2026 – Políticas e Justiça

by Silas Câmara

Os últimos dias escancararam algo que preferimos não encarar. O estupro coletivo de uma menina de 17 anos no Rio de Janeiro pode parecer apenas mais um crime brutal, mas é também um sintoma de um ecossistema digital que alimenta, amplifica e normaliza comportamentos violentos. Os acusados foram gravados comemorando o feito e um dos envolvidos se entregou à polícia usando uma camiseta com a frase “regret nothing” (em inglês, não se arrependa de nada), expressão celebrada em comunidades online da machosfera, dedicadas a homens que desprezam mulheres.

O caso do cachorro Orelha, dias antes, segue a mesma lógica: jovens que se organizam em espaços digitais onde a crueldade é tratada como humor, desafio ou demonstração de poder. A fronteira entre o que é dito na tela e o que é feito na rua está cada vez mais nebulosa. É impossível ignorar que as plataformas criaram um ambiente em que conteúdos violentos, misóginos e desumanizantes são tolerados pelos usuários e impulsionados pelos algoritmos.

Isso não acontece por acidente. A economia do engajamento das redes sociais recompensa aquilo que provoca choque, raiva e indignação. Quanto mais extremo o conteúdo, maior o tempo de permanência na tela. Quanto maior o tempo de tela, maior o lucro das plataformas.

A personalização só agrava o problema. Meninas recebem mais conteúdos que reforçam padrões inalcançáveis de beleza e consumo. Meninos são expostos de forma desproporcional a vídeos agressivos, misóginos e conspiratórios. As plataformas sabem disso e continuam promovendo esses comportamentos. Ao fazê-lo, moldam atitudes e percepções de mundo.

Se os acusados forem condenados, devem responder pelos seus atos. Mas há uma pergunta maior, que não podemos mais adiar: em que medida as redes sociais são responsáveis quando impulsionam conteúdos que incentivam certas atitudes de seus usuários?

Outros países já começaram a agir. A Austrália proibiu o acesso a redes sociais para menores de 16 anos. O Reino Unido passou a exigir verificação de idade em sites pornográficos, reduzindo drasticamente o acesso de menores. A União Europeia adotou regulações que preveem punições severas para plataformas que promovem conteúdos associados a crimes. Até os Estados Unidos estão debatendo leis que protegem jovens e crianças em plataformas online.

O Brasil ainda hesita. Mas hesitar agora significa aceitar que as redes continuem exacerbando o que temos de pior. Significa permitir que algoritmos decidam quais valores serão reforçados entre nossos jovens. Podemos fingir que crimes nascem apenas da mente do criminoso, mas muitas vezes eles são cultivados em grupos fechados, incentivados em “timelines” que ninguém vê.

Regular as redes sociais é nossa responsabilidade. A lei deve estabelecer que empresas que lucram com o comportamento humano têm deveres proporcionais ao poder que exercem. Precisamos impedir que continuem impulsionando conteúdos que desumanizam, violentam e corroem o tecido social. É nosso dever responsabilizá‑las quando seus algoritmos são cúmplices, incentivando crimes.

O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Danilo Leite Dalmon foi “Pedras e Sonhos”, de El Efecto.


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