Quando comecei minha carreira em tecnologia e segurança da informação, há cerca de 25 anos, a presença feminina era rara. Hoje o cenário melhorou e é possível ver mais mulheres em eventos do setor, liderando comunidades e produzindo conhecimento. Ainda assim, em muitas empresas, as mulheres representam apenas um quarto ou menos da força de trabalho em cibersegurança. O número cresceu, mas não no ritmo que a transformação digital exige.
Esse ritmo lento não reflete falta de competência ou interesse. Ele tem raízes em um ecossistema que historicamente se desenvolveu com predominância masculina, especialmente em áreas como infraestrutura e redes, que deram origem a grande parte das carreiras em segurança digital. Ao mesmo tempo, o próprio conceito de cibersegurança vem mudando. Hoje ele envolve não apenas tecnologia, mas também estratégia, comportamento humano e prevenção de fraudes, campos onde diversidade de perspectivas faz diferença.
Mesmo assim, muitas profissionais ainda enfrentam barreiras adicionais para permanecer e crescer na área. Conforme um estudo da Acronis, 41% das mulheres citam estereótipos como a principal barreira para iniciarem carreiras em cibersegurança. Esse contexto contribui para um fenômeno conhecido no setor: o alto índice de evasão feminina, que se dá principalmente pela “bro culture” (a cultura de fraternidade masculina que prioriza homens em espaços de tomada de decisão), que faz com que metade de todas as mulheres que trabalham na área abandonem o setor antes dos 35 anos.
O desafio, no entanto, começa antes mesmo da entrada no mercado, pois a falta de referências femininas em posições de liderança reduz a percepção de pertencimento. Quando jovens não veem mulheres ocupando cargos estratégicos é natural que não se imaginem nesse caminho. Programas de mentoria e comunidades profissionais, como o Ladies In Cyber e WoMakersCode, funcionam como “pontes” para o aprendizado sem o julgamento que muitas vezes permeia os fóruns predominantemente masculinos, criando redes de apoio e encurtando a distância entre formação e carreira.
Mais do que uma pauta de equidade, ampliar a participação feminina tornou-se uma necessidade estratégica. A cibersegurança enfrenta um déficit global de talentos e, cada vez mais, lida com ameaças digitais mais sofisticadas, impulsionadas por inteligência artificial, engenharia social e novas formas de fraudes. Equipes diversas tendem a identificar riscos com mais precisão e responder de forma mais eficaz a cenários de crise.
Diversidade, nesse contexto, não é apenas uma questão social. Quanto mais variadas forem as experiências e formas de pensar dentro de um time, maior a capacidade de antecipar ataques e proteger organizações. Em um mundo cada vez mais digital, a segurança também depende da pluralidade de quem está na linha de defesa.
Nos próximos 10 anos, espero que a representatividade feminina deixe de ser tratada apenas como um indicador de recursos humanos e passe a ser vista como uma métrica de maturidade em segurança. À medida que as organizações enfrentarem ameaças mais complexas, a capacidade de integrar diferentes visões será decisiva para proteger infraestruturas, empresas e cidadãos.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Roberta Costa foi “Cérebro Eletrônico” na versão da cantora Marisa Monte.
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