Home » Livro sobre multimilionários e empregados deve incomodar – 20/03/2026 – Economia

Livro sobre multimilionários e empregados deve incomodar – 20/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

O livro “Servir aos Super-Ricos”, da socióloga francesa Alizée Delpierre, pode causar incômodos ambivalentes aos leitores brasileiros.

Se por um lado a vida dos multimilionários franceses com sua horda de serviçais e sua lista de mimos excêntricos é absolutamente distante, por outro é impossível que as classes média e rica brasileiras (filhos e netos de uma herança escravagista) não se reconheçam na necessidade estrutural de ser servida e paparicada.

Delpierre entrevistou dezenas de empregados e patrões tomando cuidado para que os dois lados dessa dinâmica de domesticidade não estivessem sob o mesmo teto. A partir desses relatos, notamos, sem nenhuma surpresa, que os chefes se consideram benfeitores iluminados imbuídos de salvar a existência e aprimorar o caráter desses que consideram pobres mortais.

A servidão moderna de lá não é muito diferente da daqui: a elite travestida de “white savior” praticando o racismo nosso de cada dia, ou seja, acreditando que seus serviçais são pertences (“fazem parte da família”) e, portanto, estão aptos a uma rotina de exploração, abusos morais e exigências infinitas.

O que talvez nos deixe boquiabertos é o tamanho da gratidão devocional que os empregados sentem, em contrapartida, por seus contratantes.

Ainda que o preço seja abdicar da própria vida, pois muitos desses funcionários dormem nas mansões e estão impossibilitados de gozar de folgas e férias (alguns têm até seus passaportes confiscados!), enchem a boca para dizer que sem os patrões eles jamais conheceriam países e hotéis de luxo, jamais experimentariam comidas e tecidos de primeiro mundo, além da oportunidade inigualável de melhorarem de gosto estético ao conviver de perto com arte e ambientes bem decorados.

Delpierre faz questão de usar o termo “serviçal” apesar do mal-estar que ele pode causar. Acredita que os chamar de “ajudantes do lar” ou “profissionais do lar” não corresponde à maneira como são tratados e nem mesmo a forma como são referidos, durante uma conversa, pelas pessoas muito abastadas que os contratam.

Durante a pesquisa, a autora também trabalhou como babá e assistente de cozinha em casas de aristocratas e viu ainda mais de perto a exploração-dourada, expressão que designa essa lógica da supervalorização que consiste em comprar, por um preço muito elevado, a dedicação ilimitada de um empregado.

“Em troca de presentes luxuosos como bolsas Chanel e sapatos Louboutin, consultas médicas com os melhores especialistas e mensalidades escolares em colégios particulares para os filhos”, babás e empregadas domésticas são levadas a topar situações absurdas como ter de dar banho e vestir mulheres adultas totalmente capacitadas para tal.

Ambos, patrão e empregado, relatam à socióloga viverem numa espécie de “ecossistema perfeito”. Do lado mais fraco da corda, há mulheres que muitas vezes chegaram à França sem falar a língua, sem dinheiro, diploma e até mesmo sem documentos. Agora moram nos melhores e mais nobres bairros de Paris e recebem altos salários (em euros).

“No entanto, por trás dessa máscara dourada, a exploração continua a todo vapor. Ela se esconde atrás de pequenos acordos e compensações materiais que nem sempre beneficiam a todos os serviçais já que estão atrelados ao valor subjetivo que os ricos lhes atribuem. Ela também se baseia na entrega total dos corpos ao trabalho, o que subitamente remete à violência exercida por aqueles cujo dinheiro legitima o poder.”

Autor Original

You may also like

Leave a Comment