A China está restringindo as exportações de combustível de aviação, diesel e fertilizantes, aumentando os temores em algumas das maiores nações de recursos naturais, manufatura e agricultura da Ásia de que os suprimentos possam escassear por causa da guerra no Oriente Médio.
A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC, na sigla em inglês), principal órgão de planejamento econômico da China, nos últimos dias ordenou que exportadores de fertilizantes interrompessem os embarques de algumas linhas de produtos para o exterior, segundo fontes do setor, diplomatas e analistas.
Isso ocorre após instruções da NDRC no início deste mês para que grandes refinarias de petróleo estatais parassem dos embarques de combustível de aviação, diesel e querosene para o exterior.
A China é a segunda maior exportadora mundial de fertilizantes, atrás apenas da Rússia, e a sexta maior exportadora de combustível de aviação, segundo dados do Centro de Comércio Internacional. O país está tentando preservar suas reservas de energia e alimentos e proteger o mercado doméstico, dizem analistas.
Não houve anúncio oficial de Pequim sobre controles de exportação dos produtos que vende para países como Austrália, Vietnã e Índia.
Um funcionário de uma produtora de fertilizantes na província de Shandong, no norte da China, que pediu para não ser identificado, confirmou que sua empresa foi instruída a interromper as exportações para a Índia, mas disse que alguns embarques para o Sudeste Asiático ainda são permitidos. Analistas informados sobre o setor e diplomatas também confirmaram a extensão dos controles de exportação.
Dai Jiaquan, economista-chefe do CNPC ETRI, um think-tank interno da estatal petrolífera, disse ao Financial Times que as exportações de combustíveis de aviação “estão suspensas”. Ele não fez mais comentários.
Apesar da falta de anúncios oficiais, Even Pay, diretora do grupo de consultoria estratégica Trivium China, disse que “podemos ter muita confiança” de que Pequim estenderá e ampliará o escopo dos controles de exportação de fertilizantes.
“Haverá um esforço de ‘todas as mãos à obra’ para garantir que todo e qualquer fertilizante seja mantido no país pelo maior tempo possível, para assegurar que os agricultores domésticos tenham o que precisam —antes que qualquer exportação seja considerada”, disse ela.
Pequim tem usado controles de exportação para revidar Washington na guerra comercial entre EUA e China nos últimos dois anos, como aqueles sobre minerais críticos e terras raras. Esses foram anunciados publicamente e um sistema de licenças foi criado para que empresas solicitassem exportações.
Analistas disseram que a falta de um anúncio público desta vez reflete a pressa com que a NDRC agiu.
Hu Min Min, analista-chefe de petróleo bruto, combustíveis e refino da China na S&P Global Energy, disse que é “improvável” que isenções sejam concedidas para exportações de cargas de gasolina, diesel e combustível de aviação, a menos que haja uma retomada substancial da navegação pelo estreito de Hormuz.
Analistas observaram que, mesmo assim, não está claro quanto tempo levará para que as políticas de exportação da China voltem ao normal. “Esperamos que as refinarias priorizem a reposição de estoques de petróleo bruto e produtos e a garantia do abastecimento doméstico em vez de um aumento rápido nas exportações”, acrescentou Hu, da S&P.
Pay, da Trivium, observou que desde o início da pandemia de Covid-19, proibições temporárias às exportações chinesas de fertilizantes se tornaram cada vez mais comuns, embora fossem usadas principalmente para garantir o acesso dos agricultores chineses a suprimentos a preços baixos.
Desta vez, o impulso para os controles é o fechamento do estreito de Hormuz, que cortou o acesso da China a insumos essenciais para fertilizantes, incluindo enxofre.
A China é uma grande fornecedora de fertilizantes para a Índia, respondendo por 10% do total de importações indianas de fertilizantes. A Associação de Fertilizantes da Índia não respondeu imediatamente às perguntas.
Autoridades das Filipinas disseram esta semana que, embora a China tenha garantido a Manila que não restringiria os embarques de fertilizantes, o país também está de olho em fornecimentos alternativos da Índia, Rússia e Belarus.
O Vietnã está entre os mais expostos aos controles chineses.
O país, que é base para Samsung, Bosch e Nestlé, importa quase 70% de suas necessidades de combustível de aviação, com cerca de 60% vindo da Tailândia e da China.
Fornecedores no Vietnã disseram que podem garantir combustível de aviação para março, mas alertaram sobre interrupções a partir de abril.
Os custos operacionais das companhias aéreas vietnamitas aumentaram até 70% devido ao aumento nos preços do combustível de aviação.
Os controles de exportação da China também estão agravando a escassez de combustível na Austrália. O país, que é o maior exportador mundial de minério de ferro, carvão e GNL, depende da China para cerca de um terço de seu combustível de aviação. Também está entre os maiores importadores de diesel chinês.
A Austrália depende em grande parte da aviação para viagens domésticas entre as principais cidades, mas uma escassez de diesel teria um efeito profundo na distribuição de alimentos e mercadorias em todo o país. O governo alertou esta semana sobre um potencial aumento “muito real” da inflação que afetaria o PIB e, na quinta-feira, realizou uma reunião especial de gabinete para responder à crise.
Algumas mineradoras menores começaram a reduzir os trabalhos de exploração devido ao custo de levar trabalhadores a locais remotos. Rob Walker, diretor-executivo da Associação Regional de Aviação da Austrália, disse que já havia sinais de problemas de abastecimento em aeroportos rurais, pois caminhões não conseguiram entregar combustível de aviação.
Ye Lin, analista de mercado de petróleo da Ásia na Rystad Energy, disse que se a escassez de recursos começar a prejudicar as economias de parceiros comerciais importantes, pode haver uma chance de Pequim revisar as restrições de exportação para alguns parceiros comerciais-chave. “Quando outros países estiverem sofrendo, a China pode ser uma salvadora.”
Nem a NDRC nem o Ministério do Comércio, que supervisiona os controles de exportação, responderam aos pedidos de comentário.