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‘A Voz de Deus’ não caricatura pregadores mirins – 18/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Sem prejuízo da narrativa, dá para contar aqui como “A Voz de Deus” termina. João Vitor Ota, um dos pregadores mirins que o diretor Miguel Antunes Ramos acompanhou entre 2017 e 2022, está agarrado às rédeas de um touro mecânico. Segura firme para não cair. E não cai, ao menos até os créditos finais subirem.

Em outra cena, mais no começo do documentário, que estreou nesta quinta (16), nos cinemas, o pai de Daniel Pentecoste, o outro protagonista, admite que a família caiu. “Caiu na realidade” após anos criando expectativa de que seu filho fosse virar um pastor de grande projeção.

Acontece que Daniel, quando criança, alcançou certa notoriedade pregando. Há várias gravações dele da época, todo engomadinho falando de Deus. Mas a expectativa de que estourasse nunca vingou. Logo somos apresentados ao dia a dia do agora adolescente. Ele dorme num quartinho simples que divide com o pai e trabalha como caixa num mercadinho.

Ainda fala sobre Deus em público, atividade revezada com outros afazeres cotidianos. Certa hora, diz que “pagou oito horas de trabalho” e está aliviado porque o culto daquela noite foi cancelado. Senão, “ia pregar só na misericórdia”. Assim sobrava tempo para jogar videogame e comer pizza com os amigos, crentes que nem ele.

O outro personagem central, João Vitor Ota, é a bola da vez. Da primeira vez que o vemos, tem sete anos e é tratado como a promessa que um dia Daniel foi. Seu pai também é quem gerencia sua carreira de pregador mirim. Ele já tem topete e usa blazer. Os pais, ambos pastores, apostam no filho do meio para ascender como líder de grande influência.

Conheci João Vitor em 2021, quando escrevi sobre o trio de irmãos que queria “arrebatar o mercado gospel”. Na ocasião, seu pai, Leoncio Ota, profetizava: “O mundo inteiro vai conhecer esta família”.

Da última vez que nos falamos, no ano passado, Leoncio lamentava que a Meta tivesse desabilitado o perfil no Instagram do filho, com 1,4 milhão de seguidores. Nunca soube o motivo formal, mas suspeitava ter algo a ver com um vídeo publicado dias antes pelo influenciador Felca. Ele havia causado comoção nacional ao denunciar a adultização de crianças e adolescentes. Pequenos pregadores, para muitos, encaixam-se aí.

Quando encontrei pela primeira vez a família Ota, Esther, a caçula, sonhava em ter “mais de mil de mil de mil e de mil” seguidores “para ganhar mais recebidos”, que são cortesias que as marcas enviam a influenciadores em troca de divulgação. Davi, o primogênito, gostaria de ser convidado para os programas de Raul Gil e Danilo Gentili. Já João Vitor adoraria ir ao auditório do Silvio Santos (1930-2024), “pra ganhar dinheiro” do apresentador que fazia aviãozinho com notas de real.

Miguel Antunes Ramos não se deixou cair na tentação de espetacularizar ou julgar àqueles que lhe abriram as portas de suas casas na periferia de São Paulo (João Vitor) e Brasília (Daniel).

Seria simplista demais atribuir aos adultos o cálculo frio de quem instrumentaliza a fé e, a partir dela, projeta nos filhos uma fórmula de redenção social.

Não que não haja o uso da religião como ferramenta de ascensão, numa lógica de performance espiritual que cobra resultados concretos. Mas reduzir o fenômeno a isso empobrece o quadro.

O que se desenha é uma engrenagem mais complexa, lubrificada por juras teológicas de prosperidade. No imaginário evangélico brasileiro, a fé não é apenas consolo. É também horizonte de mobilidade social. Nesse terreno, crença sincera e pragmatismo coexistem.

As cenas se estendem por cinco anos. Daniel, na primeira parte do filme, é um adolescente confrontado com sua glória passada. Passa o bastão para João Vitor no Gideõezinhos, edição júnior do Gideões Missionários da Última Hora, congresso anual importante no segmento. A fila pentecostal anda.

Na segunda metade, Daniel já é adulto com esposa e filho. João está entrando na adolescência e mantém agenda intensa de pregações, quase sempre em igrejinhas de bairro onde tenta vender, depois do culto, roupas temáticas aos fiéis (“o céu será muito grato” a quem comprar, diz o pai a clientes em potencial).

Nesse meio tempo, temos duas eleições no plano de fundo. A primeira consagra Jair Bolsonaro (PL) na Presidência, a segunda o retira dela. Cenas coadjuvantes às tramas íntimas dos dois clãs evangélicos, assim como aquelas em que o pai revela o sonho de estudar em Harvard que João Vitor nutre. A família não sabe bem como pronunciar o nome da universidade americana, mas se encanta com “aquela história do sonho americano”.

O formato escolhido para contar esta história faz toda a diferença. Não há narração em off. O diretor também não entrevista ninguém. Não coloca nenhum especialista para dissecar os evangélicos como um corpo social na maca algo gelada das ciências sociais.

Apenas deixa a câmera escoltar de perto, e na edição faz um recorte sensível sobre um Brasil em que fé, ambição e vulnerabilidade se retroalimentam. Alcança, assim, um ponto de equilíbrio raro ao registrar sem absolver nem condenar.

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