Filho de uma professora e de um caixeiro-viajante, Luiz Gonzaga de Carvalho nasceu em Timbaúba, no interior de Pernambuco, mas se mudou para Belém aos dois anos. Adotou a capital paraense como lar e nunca mais quis sair de lá.
Sua mãe, que era paraense, voltou à cidade natal sozinha com os dois filhos, o outro com poucos meses de idade. A família foi acolhida na casa de um senhor, que, em troca dos serviços domésticos, ofereceu à mulher a oportunidade de estudar.
“Essa foi a primeira grande mudança da família, porque, com a oportunidade de estudar, ela conseguiu se tornar professora e ganhar independência financeira. Ela, então, conseguiu sustentar os dois filhos e passou para eles a importância da educação”, conta Raquel Ornelas, 43, neta de Luiz.
Ainda que não tenha conseguido estudar por muito tempo, Luiz sempre foi muito curioso e interessado em aprender. Lia de tudo: livros, jornais e até mesmo rótulos para saber onde as coisas eram produzidas e por quem. Fazia contas na ponta da caneta, sempre dispensando a calculadora.
Ainda jovem se apaixonou pela irmã de um grande amigo, que morava na mesma rua. Se casaram no dia em que ela completou 18 anos e viveram juntos por mais de 50 anos. Tiveram três filhas.
Luiz era muito dedicado e grato ao trabalho que, segundo ele, foi a segunda grande oportunidade de uma guinada em sua vida. Ele entrou como contínuo para trabalhar no Banco da Amazônia, depois fez concursos internos e melhorou de cargo chegando a escriturário. Também assumiu chefias, como a do serviço de pessoal.
“O trabalho no banco foi o que garantiu a moradia própria. Ele conseguiu comprar o apartamento no qual viveu toda a vida”, diz Raquel.
Apesar de gostar muito do trabalho, se aposentou aos 48 anos por ser mais vantajoso financeiramente, mas não conseguia ficar longe do banco. “Todo dia ele ia ao trabalho para encontrar os colegas, conversar. Sem dúvida, os grandes afetos da vida dele foram os amigos, principalmente, os do trabalho”, lembra a neta.
Apaixonado por Belém, acompanhava o Círio de Nazaré todos os anos da janela de casa. Conhecia muito da história da cidade, das famílias tradicionais e contava sobre o que viu no auge da borracha e as mudanças que a capital viveu ao longo dos anos.
Diariamente, precisava tomar seu açaí. Ele brincava com as filhas, todas nascidas em Belém, que, mesmo sendo pernambucano, era mais paraense do que elas.
Muito independente, dirigiu até os 90 anos e morou sozinho, depois da morte da mulher, até quase os 100 anos. “Era muito urbano, não gostava nada de ir para cidade parada ou para o interior. Gostava do que era novo, do atual e tecnológico, principalmente TVs e aparelhos de som. Chegou a ganhar uma vitrola das filhas, mas não gostou.”
Sempre com muita saúde e disposição, Luiz viveu até os 102 anos sem nunca ter tido nenhuma doença crônica. Ele morreu no dia 1º de abril, após ser internado para um procedimento médico. Deixa as filhas Regina, Renilde e Rosane, sete netos e sete bisnetos.
coluna.obituario@grupofolha.com.br