Ivald Granato fez de si mesmo um espetáculo. Conhecido pelo jeito expansivo, camisas coloridas e calças apertadas, o artista desempenhou diferentes papéis ao longo da vida. Em mais de quatro décadas de carreira, transitou entre técnicas tão diversas quanto pintura, escultura e performance —modalidade da qual se tornou precursor no Brasil.
Em um de seus trabalhos mais conhecidos, ele imitava personalidades como os artistas Andy Warhol e Joseph Beuys. Esse pendor para a metamorfose talvez explique o fascínio de Granato pela máscara, símbolo máximo do teatro retratado em uma série de pinturas do final dos anos 1990.
Esse conjunto de trabalhos, ainda pouco conhecido, é exibido pela primeira vez ao público na exposição “Máscaras, Ivald Granato – Quem é você?”, em cartaz na galeria Dan, na zona oeste de São Paulo.
Ao todo, são 32 telas do pintor, morto em 2016, aos 66 anos. Ora as máscaras aparecem em meio a cores sombrias, o que destoa dos tons quentes e coloridos das obras mais célebres de Granato; ora, elas estão com os olhos fechados, como se estivessem em transe ou perdidas no próprio subconsciente.
“Acredito que ele tenha concebido esses trabalhos em um momento de maior introspecção, no qual fez uma espécie de balanço da própria vida e pensou um pouco sobre sua ancestralidade”, diz a curadora Maria Alice Milliet.
O olhar para as origens pode ser sentido em pinturas que parecem reproduzir as máscaras de Carnaval que Granato via nas ruas de Campos dos Goytacazes, cidade no interior do Rio de Janeiro onde o artista nasceu, em 1949.
A maior parte das telas, porém, incorpora características presentes em máscaras africanas, como os contornos oblongos e os olhos semifechados. “Esses trabalhos remetem à mãe dele, que tem origem indígena e africana”, diz Milliet.
Ao lado das pinturas, a curadora decidiu posicionar máscaras africanas reais para evidenciar a relação entre esses artefatos e as obras de Granato. “Não é uma ‘forçação’ colocar essas máscaras ao lado das pinturas dele, já que a gente constatou que, de fato, o artista se interessou pelo assunto e andou pesquisando a respeito.”
Prova disso é que Granato tinha em seu ateliê um livro com reproduções desses objetos. Uma das telas presentes na mostra, inclusive, parece ter sido inspirada pela máscara impressa na capa da publicação.
Além de fazer referência às suas origens, as telas revelam o interesse de Granato pela encenação. Milliet diz que esses objetos costumam ser usados em contextos sagrados ou artísticos para incorporar características de outros seres.
“Quando notei isso, entendi por que ele se interessou tanto pela máscara. Granato sempre foi um performer”, diz a curadora, acrescentando que essa verve não se restringia apenas ao fazer artístico. “Ele chegava aos lugares e já fazia gestos, ia para o palco e tomava a cena. Interrompia os acontecimentos porque queria fazer uma espécie de atuação.”
Uma de suas performances mais emblemáticas é de 1978. À época, Granato usou bengala e chapéu coco à maneira do industrial Ciccillo Matarazzo durante o happening “Mitos Vadios”, organizado por ele em um estacionamento da rua Augusta, no centro da capital paulista.
Com a presença de artistas como Lygia Pape, Hélio Oiticica e Anna Maria Maiolino, o evento tinha como objetivo se opor à edição inaugural da Bienal Latino-Americana, que acontecia no parque Ibirapuera sob o título “Mitos e Magia”.
“Esse evento promovido por Granato não teve uma organização rígida. Ele quis reunir esses artistas para que pudessem fazer o que quisessem, algo que teve uma repercussão grande naquele momento.”
De acordo com Milliet, o pintor foi um dos representantes da contracultura —movimento que questionou normas e tradições a partir dos anos 1960. “Eles tinham a ideia de que a arte não precisava estar num museu ou numa galeria, mas sim no interior de um estacionamento de carros, por exemplo.”
Para a curadora, a postura rebelde e inquieta pode ser observada também nas telas de Granato. “É uma pintura gestual, rápida e impulsiva, quase como se não tivesse meditado muito para fazer o quadro”, diz Milliet. “Ele sempre teve um espírito crítico e anárquico.”