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Maxwell Alexandre pinta o bem-estar dos brancos em série – 14/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Ele ficou conhecido no meio da arte como um pintor da Rocinha que transportava para as telas cenas do cotidiano dos moradores da favela do Rio de Janeiro. De uns anos para cá, contudo, Maxwell Alexandre mudou de vida e, muito em consequência disso, os personagens dos seus quadros agora são outros —saíram as pessoas negras e entraram as brancas, enquanto a locação deixou de ser o morro e passou para um clube no privilegiado bairro da Gávea.

Alexandre materializa a mudança nos trabalhos expostos até o fim de maio na galeria Almeida & Dale, em São Paulo, na mostra “Pintor Preto, Figuração Branca”, sua primeira individual na casa que o representa. São dezenas de pinturas nas quais vemos pessoas brancas em situações de lazer no Clube de Regatas do Flamengo —tomando banho de sol à beira da piscina, fumando um cigarro ao redor de uma mesa ou apenas vendo a vida passar demoradamente.

Para o artista de 35 anos, um dos mais reconhecidos pintores brasileiros em atividade, o clube é tanto real, um lugar onde ele passou a nadar depois de se mudar para, como diz, um “apartamento de luxo com vista para o Pão de Açúcar”, quanto metafórico. “Clube é todo lugar de bem estar, de segurança, de boa arte, boa comida”, afirma Alexandre, numa conversa na galeria no dia anterior à abertura da exposição.

Qualquer semelhança com a série dos banhistas do britânico David Hockney ou alusão às pinturas de mesmo tema do francês Paul Cézanne não é mera coincidência. Alexandre se propôs a explorar “os corpos nus banhados em água, esta imagem exaustiva na história da arte”, ele diz. O artista argumenta que, no cânone da pintura, o homem universal é sempre branco, não à toa, a raça dos personagens dos quadros mais famosos de banhistas.

“Clube”, a extensa série de novas pinturas do carioca, marca a pacificação do artista com a história da arte ocidental. Ele conta que, quando começou a carreira, “tinha bode” das cenas de banhistas por representarem um mundo do qual não fazia parte. Alexandre ganhou fama com seus grandes painéis de papel pardo com retratos da vida na Rocinha —a representação de corpos negros altivos era algo inovador para aquele ano de 2017, quando ele começou a série.

Ele lembra que não se via como um pintor, motivo pelo qual seu traço, rápido, era feito com graxa, tinta de parede e látex. Com o passar dos anos, melhorou seu desenho —como se vê pelos detalhes das expressões quase fotográficas de alguns dos retratos em exposição na galeria— e adotou a tinta a óleo, material de pintura por excelência. Contudo, não abandonou o papel pardo, suporte de quase todos os trabalhos recentes.

Para o artista, o papel pardo faz a conexão das pinturas atuais com as anteriores. Utilizar como suporte um material barato, acessível e de embalar coisas é também um pequeno ato de rebeldia de Alexandre —ele segue renegando trabalhar sobre a tela, apesar da insistência de colecionadores e de galeristas, que veem no suporte de tecido tanto uma maior aceitação do mercado quanto uma matéria-prima adequada para a conservação das tintas no decorrer das décadas.

O papel é também um comentário sobre a classificação oficial das raças no Brasil —o IBGE usa “pardo” como uma das cinco possíveis no censo. Mas, para o artista, pardo é uma definição que serve para tornar as pessoas negras mais brancas. De todo modo, nas pinturas de “Clube” ele deixa alguns pedaços do papel à vista, sem tinta por cima, para compor os cabelos e a pele de alguns dos retratados, valendo-se de uma proximidade cromática maior do material com o branco. “O papel é a pele e é a luz do sol”, ele diz.

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