Durante pelo menos 10 mil anos, das origens da agricultura ao período posterior à Idade Média, os homens europeus tendiam a consumir mais proteína de origem animal do que as mulheres, revela um novo estudo.
Os dados sugerem que o acesso privilegiado a esses alimentos por parte de membros do sexo masculino se manteve nas mais diversas sociedades do continente durante quase toda a história registrada, ainda que com variações de um período para outro.
Os resultados, publicados no dia 4 deste mês na revista especializada PNAS Nexus, vêm de um trabalho chefiado por Rozenn Colleter, do Instituto Nacional de Pesquisas Arqueológicas Preventivas, sediado em Paris, e Michael Richards, da Universidade Simon Fraser, no Canadá.
A dupla e seus colegas coletaram informações sobre a composição química de mais de 12 mil esqueletos humanos, encontrados em quase 400 sítios arqueológicos europeus, de Portugal à Rússia e da Groenlândia à Grécia (para efeito comparativo, a amostragem inclui ainda alguns sítios da Turquia e dos territórios israelenses e palestinos).
A amostragem da equipe inclui restos humanos de quase todos os períodos entre o fim da Era do Gelo e o presente, todos com pelo menos algumas centenas de indivíduos. Os períodos com maior número de amostras são o começo da Idade Média (de 500 d.C. a 1000 d.C.), com 3.591 indivíduos; a Antiguidade (de 800 a.C. a 476 d.C.), com 1.939 esqueletos; e a Alta Idade Média (de 1000 d.C. a 1300 d.C.), com 1.733 indivíduos.
Nesse tipo de pesquisa, os arqueólogos costumam pôr em prática a máxima “você é o que você come” como ferramenta para entender como viviam os povos do passado. O que acontece é que as proporções de determinados isótopos –isto é, de variantes dos elementos químicos– presentes nos alimentos ingeridos por seres humanos e outros animais são incorporados pelo organismo deles.
Como essas proporções costumam variar de alimento para alimento, seguindo padrões razoavelmente bem conhecidos, é possível usá-las para reconstruir o que os indivíduos andavam comendo ao longo da vida. Entre esses isótopos, dois dos mais importantes são o nitrogênio-15 e o carbono-13 (os números se referem ao “peso” desses elementos químicos, equivalente à soma do número de partículas do núcleo dos átomos).
Proporções relativamente mais altas de nitrogênio-15, por exemplo, são um indicador de maior consumo de proteína animal, e podem ser ainda mais elevadas por causa do consumo de peixes e outros animais aquáticos.
Já o carbono-13 é proporcionalmente mais comum em dietas ricas em gramíneas de origem tropical, como o milho e a cana-de-açúcar. Uma série de outros fatores, porém, também pode influenciar os resultados, como o uso de esterco para fertilizar plantações.
Para tentar minimizar o impacto desse e de outros fatores com potencial para confundir as análises, a equipe estabeleceu critérios comparativos com base nos extremos da distribuição de cada amostragem temporal.
Isso significa que, para cada período, eles compararam os resultados correspondentes aos 10% dos valores mais altos –digamos, os 10% de indivíduos com a maior proporção relativa de nitrogênio-15 ou carbono-13 no organismo– e os 10% de valores mais baixos (nesse caso, os indivíduos com a menor proporção relativa dos isótopos).
Esse procedimento ajuda os pesquisadores a entender se havia alguma variação clara de consumo de alimentos dentro de cada faixa temporal (e, dependendo do caso, dentro de cada comunidade estudada também). E foi com base nele que saltou aos olhos uma diferença significativa entre pessoas do sexo feminino e masculino.
Nos indicadores de consumo de proteína animal, em todos os períodos havia um predomínio dos homens nos 10% superiores. Mesmo na população em geral, a proporção média de nitrogênio-15 era mais alta em homens, também em todos os períodos.
Para ser mais exato, a proporção nos 10% superiores era de 2,16 homens para cada mulher (em números absolutos, 1.062 indivíduos do sexo masculino para 492 do feminino), sendo especialmente mais elevada nas amostragens correspondentes à Idade Média e relativamente mais baixa na Antiguidade. Já nos 10% inferiores, a proporção total é de 862 mulheres para 678 homens. Há ainda algumas exceções ao padrão geral: em 5% dos sítios arqueológicos estudados, as mulheres parecem ter tido mais acesso a proteínas de origem animal do que os homens.
As explicações comportamentais para esse padrão não estão totalmente claras, podendo envolver uma série de fatores econômicos e sociais. Sabe-se, porém, que grupos nos quais homens e mulheres costumam fazer suas refeições separadamente podem acabar “segregando” também os alimentos vistos como mais nobres, deixando-os para os homens.
Além disso, sociedades que dão mais valor a filhos homens, como sucessores dos pais em suas ocupações ou mesmo nas atividades militares, podem acabar alimentando pior as filhas, reservando o acesso preferencial a carnes, peixes e laticínios para os meninos.