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‘Não somos nada sem um de nós’, escreve leitor – 16/04/2026 – Praça do Leitor

by Silas Câmara

Chegou sem aviso, numa frase dita quase ao acaso. Há palavras que não pedem explicação imediata; pedem silêncio. Essa foi uma delas. Ficou atravessada dois dias, exigindo digestão. Não era nova, mas naquele momento soou como moeda antiga esquecida no fundo da gaveta.

Ao redor, o mundo seguia seu ritmo habitual: fim de ano, gente passando, sacolas, urgências. Tudo parecia confirmar a ilusão confortável de que somos ilhas bem demarcadas, cada qual com suas cercas, suas pontes móveis, seus próprios termos. Ainda assim, bastava um tropeço, uma dor súbita, uma ausência inesperada, para que essa autonomia revelasse sua fragilidade de papel.

“Não somos nada sem um de nós” soa como aviso e confissão. Aviso de que o coletivo não se sustenta por abstração. Confissão do que já sabemos: toda ideia de “todo” que prescinde de alguém já nasce torta.

Não se trata de falar em “nós” como quem fala de massa, de número, de maioria. Aqui o “nós” só existe se for atravessado pelo “nenhum”, palavra, muitas vezes, incômoda, que aponta para o indivíduo esquecido, o que sobra na estatística, o que faz o trabalho invisível, o que não cabe no discurso. Sem ele, o conjunto vira slogan.

Há também um deslocamento ético poderoso. Não se trata de dizer que somos melhores porque estamos juntos. Isso é fácil, quase decorativo. Trata-se de afirmar que, sem o outro concreto, específico, imperfeito, simplesmente não somos. O verbo não é melhorar, é existir. O ser depende do vínculo.

Em “O Aleph“, Jorge Luís Borges nos conta que existe um ponto minúsculo, escondido no porão de uma casa comum, onde cabem todos os pontos do mundo. Ali estão, ao mesmo tempo, todas as pessoas, todos os lugares, todos os tempos, sem sobreposição, sem hierarquias, sem esquecimento. Nada falta. Nada pode faltar. O Aleph é, no fundo, a imagem extrema dessa ideia: a totalidade só se realiza quando nenhum fragmento é excluído. Se algo fica de fora, o Aleph deixa de ser Aleph e vira apenas um recorte, uma visão pobre do infinito.

Borges, porém, não escreve uma fábula otimista. O narrador vê tudo, inclusive o que preferia não ver. O excesso não traz paz; traz vertigem, cansaço, quase repulsa. Ver o todo implica encarar o insignificante, o vulgar, o doloroso. O Aleph não seleciona. Ele inclui. E incluir, como frase sugere, tem um custo ético e emocional.

Talvez por isso a frase incomode. Ela cobra coerência. Exige que se olhe para os ausentes, que se veja o que, aparentemente, pode parecer invisível: quem ficou de fora da mesa, do texto, da política, da memória. Penso sempre nisso toda vez que alguém não aparece na foto, embora sem essa pessoa a festa não teria acontecido. E a frase pergunta, sem levantar a voz: quem estamos aceitando perder em nome da eficiência, da ordem, do consenso?

No fim, a frase não consola; ela responsabiliza. Diz que cada exclusão é uma amputação silenciosa. E que toda vez que aceitamos um “nós” sem alguém, estamos, na prática, aceitando ser menos, achando que ainda somos tudo.


Marcio Aurelio Soares é médico sanitarista e do trabalho e escritor. Morador de Santos (SP), é autor de Você e Balança, Amigos para Sempre (Ed. Marolo, 2003), Sala de Espera – Crônica de um Médico (Editora Comunicar, 2012), Plantador de Tâmaras (Ed. Matarazzo, 2022), entre outros.

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