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Que falta para distinguir antissemitismo de antissionismo? – 17/04/2026 – Bernardo Carvalho

by Silas Câmara

Quando estive no Japão, lá se vão quase 20 anos, uma amiga me contou, rindo, a malograda decisão das autoridades de desencavar a origem da família real por meio do DNA dos restos mortais dos ancestrais mantidos nos porões do Palácio Imperial em Tóquio. Bastou abrir a primeira tumba e descobrir que a matriarca era coreana para fecharem tudo e nunca mais falarem no assunto.

Lembrei da anedota ao ler “Freud e os Não Europeus”, conferência de Edward Said, de 2001, publicada no Brasil pela Boitempo e agora reeditada, em inglês, pela Verso. Said revisita o polêmico “Moisés e o Monoteísmo”, último grande texto de Freud, que põe em questão a própria origem do judaísmo, para pensar numa ideia mais híbrida, mais justa e mais inclusiva de Israel. Vem a calhar no momento em que o Parlamento israelense aprova uma lei que condena palestinos à pena capital por ataques homicidas, mas não judeus acusados do mesmo crime.

Said, um dos principais pensadores da diáspora palestina, tinha um interesse especial pelo que chamou “estilo tardio” em obras radicais que resultam da urgência de dizer e criar quando já não se atenta para o risco das dificuldades, das desarmonias e das contradições. São obras cuja imperfeição é também a sua qualidade; nas quais a dúvida é um elemento central. “Moisés e o Monoteísmo” é o estilo tardio em Freud.

Freud começa se desculpando pelo potencial devastador de sua tese: que Moisés, por diversos indícios históricos, não podia ser judeu. “Privar um povo do homem celebrado como o maior dos seus filhos não é algo que se faça com prazer ou de forma leviana, ainda mais quando quem o faz pertence a esse povo.”

E segue fazendo uma analogia entre neurose e religião: assim como no indivíduo para o qual o trauma, recalcado na infância, volta a se manifestar como neurose na idade adulta, também os fenômenos religiosos seriam manifestações diferidas e deslocadas do trauma social convertido em dogma, depois de um longo período de latência do que foi historicamente recalcado. O judaísmo, para Freud, nasce do recalque do assassinato de Moisés por seu próprio povo.

“Freud quer nos fazer entender que há aqui outras questões em jogo — outros problemas a expor, mais urgentes do que aqueles cuja solução seria confortável”, Said escreve.

O que lhe interessa na leitura de “Moisés e o Monoteísmo” —e na tese “deliberadamente provocativa” de que o judaísmo teve início no âmbito do monoteísmo egípcio— é na verdade o recalque promovido pelo Estado de Israel na criação de sua identidade.

“Ao escavar a arqueologia da identidade judaica, Freud insistia que ela não começava em si mesma, mas antes com outras identidades — egípcia e árabe […]. Essa história não judaica, não europeia, foi apagada para sempre no que se refere a uma identidade judaica oficial.”

Freud não viveu para ver o Holocausto e a criação do Estado de Israel. A ideia psicanalítica de identidade, porém, não lhe permitia crer na ficção simplista e consoladora dos nacionalismos. A complexidade e o cosmopolitismo da tradição judaica à qual ele se sentia profundamente identificado eram também fatores de sua perseguição. Mas era esse risco, paradoxalmente, que a tornava única e especial.

Ao sequestrar essa identidade para o contexto da nação, o sionismo precisa ao mesmo tempo recalcá-la e subvertê-la, convertendo o judeu, de “outro”, suposto estrangeiro, “não europeu” do antissemitismo, no equivalente ao europeu fora da Europa, colonizador contraposto aos habitantes locais convertidos em outro.

Ao atribuir a origem do judaísmo a um estrangeiro e insistir no não europeu a partir de uma perspectiva judaica, Freud faz um “esboço admirável do que isso implica, recusando-se a reduzir a identidade a grupos nacionalistas ou religiosos aos quais tantas pessoas desejam desesperadamente pertencer”.

Que mais é preciso para entender a diferença entre antissemitismo e antissionismo?


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