Se o objetivo de “Rio de Sangue” era fazer um filme de ação à maneira americana, conseguiu. Estão lá, em maior ou menor medida, todos os atalhos e fórmulas do gênero, acrescidos, claro, de uma “cor local” —no caso, a Amazônia.
Aqui, temos uma agente da Polícia Federal (Giovanna Antonelli) que adentra a floresta amazônica para resgatar a filha (Alice Wegmann), uma médica sequestrada por garimpeiros, no exato momento em que atendia a indígenas, e forçada a cuidar do filho (Ravel Andrade) do dono do garimpo (Antonio Calloni).
À parte o previsível conflito entre os bons e os maus, algumas rusgas surgem, que não definem o caráter de nenhum dos personagens, mas merecem ser mencionadas. Assim, a mãe, Patricia, não entende por que a filha, Luiza, com seu diploma na mão, acabou nesse fim de mundo, cuidando “dessa gente”. Já o dono do garimpo é um vilão com dentes de ouro que sofre porque o filho “frouxo” não pretende ser seu herdeiro, ao contrário do sobrinho.
E assim seguem as coisas entre os bons muito bons e os maus muito maus, péssimos. Alguma ambiguidade surge com os indígenas, que fecham acordos com os garimpeiros porque não confiam no governo —mas ela logo se dissolve sem grandes complexidades.
Se houvesse espaço para complexidade, ela estaria no indígena renegado, figura deslocada que não pertence nem à própria comunidade nem ao mundo dos brancos. Oscilando entre os dois lados —o da agente e o dos garimpeiros—, ele poderia assumir o papel de um justiceiro à la Charles Bronson. É, de longe, o personagem mais promissor do filme. Como foi desenvolvido, porém, reduz-se a um recurso funcional: entra e sai de cena conforme a conveniência do roteiro, sempre que surge a necessidade de resolver um impasse.
Nem por isso pode-se dizer que se trata de um filme desprezível. Há sequências de ação bem resolvidas (outras nem tanto), a direção de atores não é má, e até alguma referência a John Woo parece querer dar alguma estatura ao filme. Na tradição imitativa é de se notar o hábito de personagens e extras levarem todo tipo de tiro, sobreviverem e ressurgirem nos momentos adequados, ou de se livrarem das situações perigosas mais inacreditáveis de maneiras ainda mais inacreditáveis.
O problema básico, porém, não é esse, e sim o caráter imitativo da empreitada. Todo esforço para se parecer com um filme americano não produz um filme americano, mas uma aparência vazia. Podemos até acreditar em certas fantasias quando vemos filmes estrangeiros, mas só porque são estrangeiros e pertencem a outra tradição.
Nós, aqui, sabemos que não são os garimpeiros —nem eventuais “donos”— que mandam no garimpo. A verdadeira história começaria quando se descobrisse quem está por trás dessa engrenagem, lucrando alto, enquanto os trabalhadores seguem miseráveis, presos ao ciclo do ouro —apesar de todo o discurso grandioso que o cerca.
Admita-se, não é fácil fazer filmes na Amazônia, mas é possível fazê-los mais que razoáveis. Há não muitos anos houve um com a história de uma mãe em busca de seu filho, escravizado por garimpeiros ou coisa assim. Também era uma história de mãe e filho, mas nem por isso cedia ao gosto da imitação, dava alguma chance aos personagens de existirem —em vez de serem meros fantoches levados por atores esforçados.
“Rio de Sangue” quase nos obriga a, imediatamente, lembrar da frase de Paulo Emilio Sales Gomes sobre nossa “incapacidade criativa de copiar”. Ele queria dizer com isso que nossos filmes eram incapazes de copiar os estrangeiros, embora se esforçassem nesse sentido, e dessa incapacidade nascia por vezes algo próprio, genuíno.
Hoje, alguns cineastas parecem ter se tornado artesãos capazes de copiar. Mas o que resta disso é pouca coisa, embora “Rio de Sangue” seja bem mais animador do que, por exemplo, o inacreditável “O Doutrinador”.