De repente, passou a parecer que o principal motivo da baixa extra de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o “endividamento” das famílias, palavra que vai entre aspas porque diz algo confuso ou nada, tal como tem sido empregada. A opinião pública convencional comprou a versão oficial.
Quem sabe parte do desprestígio extra de Lula se deva mesmo a dificuldades das pessoas com dívidas. A situação financeira de parte das famílias piorou e há indícios de insatisfação em certos levantamentos de opinião, mas não dá para cravar, por falta de pesquisa grande o suficiente.
A conta da avaliação de Lula está no vermelho desde o início de 2025; no zero a zero desde meados de 2024. Apenas voltou a piorar um pouco. Trata-se aqui da diferença entre a porcentagem de pessoas que dão a ele nota “ótimo ou bom” e “ruim ou péssimo” no Datafolha.
Além de vir de mais longe, o desprestígio parece alimentado por mais insatisfações. Surtos de inflação tornam mais insuportável um nível de preços elevado (“tudo caro”) desde a epidemia, em especial o de alimentos. Há queixas sobre impostos ou medo deles (da “taxa das blusinhas” às mentiras da direita sobre o Pix). A fila cruel do INSS mais do que dobrou sob Lula 3. O caderno de reclamações é comprido e variado.
A inadimplência das pessoas físicas no crédito bancário cresce desde o final de 2024, mas não sabemos bem quanto, pois o Banco Central mudou no início de 2025 o modo pelo qual bancos registram perdas com calotes e similares. Juros bancários começaram a subir ao longo de 2024; a Selic, em novembro de 2024. Taxas mais altas não apenas dificultam o pagamento de dívidas, mas afetam quem está no azul e quer comprar um bem financiado, que fica mais caro, óbvio
A medida de comprometimento da renda com o pagamento de juros e amortização tem relevância, mas é uma conta de somas de rendas variadas, que dificultam interpretação mais social ou política dos resultados. É fato que o total de dinheiro emprestado a pessoas físicas era de apenas 20% do PIB em 2010 (final de Lula 1, com 3,4% do PIB em crédito imobiliário). Foi a 31% no final da epidemia (2022) e está em 34,8% do PIB (10,3% de imobiliário). Uma alta dos já aberrantes juros brasileiros faz mais estrago. Quanto?
Em março, 12,3% das famílias diziam que não teriam condições de pagar dívidas, segundo a pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio. São 2,27 milhões de famílias, o que pode dizer respeito a uns 4 milhões de eleitores. É importante. Mudou muito? Eram 2,14 milhões de pessoas nessa aflição em março de 2025 (12,2%). Em momentos melhores da popularidade de Lula, como em fins de 2023, eram cerca de 2 milhões.
Pode ser que muita gente tenha entrado e saído dessa lista de inadimplentes; que o efeito cumulativo do tormento tenha levado mais gente a detestar o governo. Não dá para saber, com esses dados. Mas a variação do número de pessoas à beira da inadimplência não foi tão grande, em termos políticos.
Enfatizar que o desprestígio de Lula nas pesquisas se deve a “endividamento” parece conveniente, pois a responsabilidade pelos juros altos não seria do governo, mas do BC, diz o lulismo. Na Terra do Nunca, os juros não sobem por aumento de dívida pública, descrédito fiscal e alta de gastos em economia já aquecida. Sobem por causa do BC. Enfim, iludir-se desta maneira vai causar danos até à estratégia eleitoral do governo, ora em Nárnia.
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