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Criador da Embrapa demorou décadas para ser reconhecido – 18/04/2026 – Economia

by Silas Câmara

“Não são poucas as pessoas que me perguntam quem, afinal das contas, foi o verdadeiro criador da Embrapa.” A dúvida, embora não chegasse a tirar o sono de ninguém, persistia ainda no ano de 2005, quando foi registrada em livro pelo primeiro presidente da instituição, José Irineu Cabral, mais de três décadas depois da fundação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em 1973.

A obra de Irineu Cabral, infelizmente, não soluciona o problema. Em “O Sol da Manhã: Memória da Embrapa” (Unesco), o ex-presidente enumera uma dúzia de pessoas entre os “criadores da Embrapa”, incluindo ele próprio, sem que fique muito claro quem contribuiu com o quê.

Alguns anos mais tarde, na década de 2010, o economista José Eustáquio Vieira Filho, ao chegar a Brasília para trabalhar no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), decidiu se colocar a mesma questão. Afinal, quem havia criado a estatal? A pergunta fazia sentido porque a Embrapa não era uma criação óbvia, uma ideia que pudesse ter ocorrido a várias pessoas simultaneamente —longe disso.

A empresa produzia sobretudo bens intangíveis. A princípio, funcionou como uma fábrica de pesquisadores. Um dos seus objetivos iniciais era o de formar centenas de novos doutores fora do país. Quando retornasse, essa multidão de cientistas poderia contribuir com soluções para a baixa produtividade da agricultura brasileira, quem sabe com ideias para aprimorar o solo do cerrado, então pouco aproveitável para o cultivo de grãos.

Numa época em que o Brasil ainda associava desenvolvimento à construção de fábricas, ou seja, ao uso de capital físico, a Embrapa foi uma empresa concebida para produzir pesquisa e capital humano. O que Eustáquio e muita gente queria saber era: quem tinha tido essa ideia esdrúxula?

Alguém, naquela dúzia de nomes de Irineu Cabral, havia tido uma ideia brilhante. E que tinha dado muito certo. Quando a Embrapa foi criada, no início dos anos 1970, a agricultura brasileira operava com baixa produtividade, e o Brasil precisava importar boa parte dos alimentos que consumia: trigo, carnes, frutas, arroz e milho. Desde então, entre 1975 e 2025, a produção de grãos cresceu nove vezes, ocupando apenas o dobro da área plantada. O Brasil é hoje o maior exportador mundial de sete produtos agropecuários, e o superávit obtido com essas vendas sustenta a balança comercial brasileira.

Pesquisas como a da cientista Mariangela Hungria, incluída recentemente pela revista Time na lista das cem pessoas mais influentes do mundo, contribuíram para o setor agropecuário dar esse salto. Hungria ajudou a aprimorar, na Embrapa, a técnica de plantio da soja sem a necessidade de adubos nitrogenados sintéticos, o que reduziu custos para os produtores brasileiros.

Um estudo recente produzido pelo economista Jacob Moscona, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), e coautores estima que as descobertas feitas pela Embrapa —a tecnologia para melhorar o solo do cerrado ou a que adaptou a soja para o clima tropical, entre outras— tenham sido responsáveis por um aumento de 110% na produtividade de toda a agricultura brasileira desde os anos 1970. Os autores também calculam que cada dólar investido na empresa gerou US$ 17 de benefício para a economia brasileira.

Na época em que José Eustáquio, o pesquisador do Ipea, começou a se perguntar sobre a criação da Embrapa, muita gente dizia que o “pai” da empresa era o ex-ministro da Agricultura no governo de Ernesto Geisel, o político mineiro Alysson Paolinelli. Mas Paolinelli só passou a comandar a pasta em 1974. Ora, a Embrapa havia sido fundada um ano antes, em 1973, quando o ministro da Agricultura era o gaúcho Luiz Fernando Cirne Lima. As datas não batiam. “‘Ah, o Alysson criou a Embrapa’, todo mundo falava isso, ainda fala”, disse Eustáquio. “Não, não criou. Porque a Embrapa foi criada antes.”

A atual presidente da empresa, Silvia Massruhá, explica a atribuição costumeira de paternidade ao ex-ministro Paolinelli pelo papel relevante que ele teve logo no início de funcionamento da estatal. “O Paolinelli foi muito importante por criar várias unidades. Se você for olhar as plaquinhas de várias unidades da Embrapa, você vai ver que o Alysson era o ministro, ele ajudou a fomentar isso. O Cirne Lima assinou o papel, mas o Alysson ficou mais reconhecido como o criador da Embrapa.”

Não demorou, contudo, para que Eustáquio descobrisse duas coisas. A primeira é que, embora fosse evidentemente resultado de um trabalho coletivo, era, sim, possível atribuir a concepção e a implementação da Embrapa a uma só pessoa: o autor da ideia de criar uma empresa dedicada à formação de capital humano e à produção de pesquisa. A segunda é que essa pessoa não era Irineu Cabral, nem Paolinelli, nem Cirne Lima.

Eliseu Alves nasceu em dezembro de 1930 em São João del-Rei, Minas Gerais. Passou a infância na fazenda dos avós. Aos sete anos, ganhou um cavalo e, com ele, tarefas na lida com o gado. “O presente veio junto com uma obrigação. Gostei dos dois.” Na adolescência, Eliseu estudou em um internato protestante, onde diz ter desenvolvido o senso de responsabilidade individual.

Quem trabalhou com ele na Embrapa o descreve como um chefe ao mesmo tempo exigente e generoso. É matemático autodidata e católico praticante. Eliseu “sempre foi uma pessoa muito simples”, mas dono de “personalidade muito forte”, diz Celso Moretti, ex-presidente da Embrapa.

No final da década de 1960, depois de ter feito mestrado em economia agrícola na Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, Eliseu voltou ao país para trabalhar no apoio técnico a produtores rurais, em Minas. No auge do milagre econômico, as cidades cresciam, a demanda por alimentos também, mas a oferta agrícola não respondia no mesmo ritmo.

A extensão ou assistência rural, a que Eliseu se dedicava, era um trabalho direto com os produtores, em particular os de pequeno porte, de educação e difusão de técnicas agrícolas. A ideia era a de que eles, com auxílio de conhecimentos e práticas modernas, poderiam aumentar a produção de alimentos e responder à crescente demanda urbana.

Havia uma entidade, com sede no Rio de Janeiro, a Abcar (Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural), que centralizava as atividades de assistência e ensino de técnicas agrícolas no país. Eliseu foi convidado, no início dos anos 1970, para trabalhar como consultor da Abcar. Lá conheceu o sociólogo José Pastore, que tinha vindo de São Paulo, da USP, para também ser consultor e tentar aprimorar os métodos de extensão rural no Brasil.

José Pastore tem uma fala pausada e agradável, um jeito atencioso e educado de lidar com o interlocutor. É mais fácil imaginá-lo no papel de gentil anfitrião rural do que Eliseu. Pastore gosta de escrever e é músico formado em conservatório. Aos 90 anos, lamenta já não poder tocar violino.

Pastore e Eliseu se encontravam semanalmente no Rio. Tinham interesses acadêmicos próximos. Ficaram amigos. “Um certo dia o Eliseu se vira para mim e fala assim: ‘José Pastore, nós fomos contratados aqui para desenvolver o sistema de difusão de tecnologia, mas o problema do Brasil não é esse. O problema do Brasil é que não tem tecnologia para difundir’. Olha a sacada do Eliseu! ‘O negócio tem que ser pesquisa. Nós fomos contratados para fazer um serviço errado’, ele me disse.”

A Embrapa nasceu dessas conversas e dessa ideia. Outros países no mundo tinham multiplicado a sua produção agrícola ao adotar técnicas desenvolvidas em países ricos, mas as técnicas agrícolas de clima temperado eram inadequadas para o Brasil. O problema não era a difusão de técnicas para os agricultores, mas sim desenvolver técnicas específicas para a agricultura tropical.

O presidente da Abcar colocou Pastore em contato com o ministro da Agricultura, Luiz Fernando Cirne Lima. “Se não me engano, essa conversa foi na casa do Pastore, em São Paulo”, lembrou Cirne Lima, atualmente com 93 anos. “Durante a noite eu pensei muito sobre o que conversamos”, conta o ex-ministro. E concluiu que o sociólogo paulista tinha razão. A agricultura brasileira precisava de pesquisadores.

Pastore ficou encarregado de liderar um grupo de consultores que iriam idealizar uma nova instituição, responsável por formar centenas de cientistas. Nesse grupo, Eliseu deu outra ideia que seria importante para o sucesso da Embrapa: concentrar as diferentes linhas de pesquisa em unidades espalhadas pelo país, mas próximas das áreas de produção. Centro de estudo da soja, no Paraná. Trigo, no Rio Grande do Sul. Gado de leite, Minas.

Cirne Lima se lembra de ir levar as ideias do grupo ao presidente de turno, Emílio Garrastazu Médici. Era preciso explicar ao militar a necessidade de formar mil novos doutores, nas melhores universidades norte-americanas e europeias. Com o detalhe de que eles não necessariamente voltariam de lá com as respostas para os problemas da agricultura brasileira: teriam apenas aprendido a melhor técnica científica, que colocariam em prática na volta.

Além disso, nem todos vingariam. Era provável que apenas 30% dos doutores formados com recursos da Embrapa de fato contribuíssem com novas pesquisas e descobertas, disse o ministro Cirne Lima ao seu chefe. “O presidente Médici, que era um homem muito arguto, me perguntou: por que não fazemos um trabalho de seleção e mandamos só os 300 que vão dar certo? Eu disse: porque isso nós só vamos saber quando eles voltarem, presidente.”

Depois que a Embrapa foi formada, Eliseu Alves foi seu primeiro diretor de recursos humanos. Coube a ele coordenar o trabalho de formação de novos doutores. Que começaram a voltar e a mudar a cara da agricultura brasileira no final da década de 1970. Alguns dos principais frutos de pesquisa inovadora da Embrapa foram colhidos nos anos 1980, quando Eliseu se tornou presidente da empresa.

Pastore, que não tem dúvidas em atribuir ao amigo a paternidade intelectual e prática da Embrapa, lamenta que Eliseu Alves não tenha ainda recebido o crédito que mereceria pelo seu trabalho. “Eu não vi ele receber nem um décimo do reconhecimento que merece, do Brasil, até hoje.”

O ex-ministro Cirne Lima tem uma possível explicação para o relativo esquecimento a que por muitos anos foi submetido o grupo coordenado por Pastore.

Em um trabalho acadêmico, Eliseu caracterizou aquele período nos anos 1970, de crescimento econômico e forte demanda por produtos agrícolas, como um momento de “crise de alimentos, traduzida em preços elevados, desabastecimento das cidades, filas nos supermercados, agitação social”.

O ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, apoiou a criação da Embrapa, como solução de longo prazo para esses problemas, mas também cobrava de Cirne Lima saídas de curto prazo para a alta de preços. Incluindo o controle de preços agrícolas. O desgaste dos embates com Delfim acabou levando o ministro da Agricultura a pedir demissão.

“Eu saí, renunciei publicando uma carta. Acho que fui o único ministro de governo militar que saiu com uma carta de renúncia, e dizendo por que saía. E eu saí no dia 10 de maio de 1973.” Apenas duas semanas depois da criação oficial da Embrapa.

A demissão, algo estridente, teria levado a que a memória daquilo que Cirne Lima havia feito no governo não fosse preservada, argumenta o ex-ministro. “Porque eu saí incompatibilizado. E aí a memória acabou. O fato é que, por questões políticas ou o que seja, por décadas, não ficou claro o [nosso] papel.”

José Pastore disse concordar com a interpretação do ex-ministro. Além disso, observou, “a tarefa de implantação sob o ministro Alysson Paolinelli foi gigantesca e ofuscou o esforço de criação do modelo e da nova instituição”. De resto, a modéstia do próprio Pastore e de Eliseu, que nunca alardearam suas contribuições, contribuiu para que o “esforço de criação” permanecesse obscuro.

Aos poucos, embora tardiamente, a memória do trabalho empreendido pelo grupo pioneiro começou a ser recuperada.

Em 2018, o jornalista Jorge Duarte, da Embrapa, publicou uma longa entrevista, em forma de livro, com Eliseu Alves. Disse ter tido a ideia ao contrastar a idade já avançada do pesquisador e o fato de não haver registro, até aquele momento, da sua trajetória profissional. “Eu pensei: cara, acho que nunca ninguém entrevistou o Eliseu sobre a história dele.”

O economista Marcos Lisboa, ex-presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica, descobriu por essa época, ao fazer entrevistas com Delfim Netto, a importância do trabalho de Eliseu. Foi Delfim, ainda vivo, quem apresentou Eliseu a Lisboa.

Convencido da importância do agrônomo, o economista passou a registrar, em artigos e textos na imprensa, o papel de Eliseu na criação da Embrapa. “O Eliseu é um gênio e não teve o reconhecimento que merece”, afirma Lisboa.

Em 2022, afinal, José Eustáquio Vieira Filho publicou um artigo no Ipea sobre o papel da Embrapa no desenvolvimento da agricultura no Brasil. No texto, o economista atribui a Eliseu Alves o papel central na concepção da instituição.

Naquele mesmo ano, lembra Eustáquio, estava em marcha uma campanha, capitaneada pelo ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, para conceder o Prêmio Nobel da Paz a Alysson Paolinelli. Tanto Rodrigues quanto Paolinelli foram lideranças importantes do agronegócio brasileiro. Durante a Constituinte, no final dos anos 1980, Paolinelli era simultaneamente deputado federal (PFL-MG) e presidente da Confederação Nacional da Agricultura.

Paolinelli, diz Ivan Wedekin, responsável por coordenar a produção do material técnico apresentado ao comitê do Prêmio Nobel da Paz, foi o grande responsável pela “revolução da agricultura tropical no Brasil, transformando as terras do cerrado, que eram solos ácidos, savanas das piores do mundo, improdutivas, num grande celeiro do Brasil”.

Wedekin e Roberto Rodrigues reconheceram, em entrevista à Folha, a grande importância do trabalho de Eliseu Alves. Mas ambos atribuem a Paolinelli a primazia no salto agropecuário realizado pelo país nos últimos 50 anos.

Eustáquio atribui ao fato de Paolinelli ter maior articulação política do que Eliseu Alves o reconhecimento que tem recebido na memória da implementação da Embrapa e na transformação da agricultura brasileira.

Paolinelli morreu em junho de 2023. Eliseu Alves tem tido dificuldades de locomoção e também de comunicação, por problemas auditivos, nos últimos anos. Justo nesse período, José Pastore passou a dar entrevistas e a falar, com mais frequência e detalhe, sobre a época em que trabalharam juntos na criação da Embrapa. Invariavelmente, Pastore, que liderou o grupo de estudos montado pelo governo para projetar a empresa, confere a Eliseu o papel central na sua concepção.

Em abril de 2023, a Embrapa fez 50 anos. Uma cerimônia em Brasília buscou, segundo a atual presidente, Silvia Massruhá, “resgatar” a história da empresa. Muita gente foi homenageada. Houve reconhecimento do papel dos fundadores, nos discursos, e distribuição de troféus comemorativos.

Segundo Silvia, que à época ainda não tinha assumido a presidência da empresa, tanto Eliseu Alves quanto Alysson Paolinelli receberam troféus com a inscrição “50 anos” sobre fundo transparente. O ex-ministro Cirne Lima foi convidado e também teve direito à pequena peça comemorativa.

Silvia notou a presença de José Pastore na plateia, durante a cerimônia. O sociólogo tinha ido prestigiar os amigos e antigos colegas. Mas saiu de mãos vazias. Ninguém havia confeccionado um exemplar do troféu, que homenageava pessoas importantes na história da Embrapa, com o nome de Pastore. “Ele não recebeu o reconhecimento lá na frente, como os outros”, lembrou Silvia.

Sensibilizada, a presidente da Embrapa providenciou um troféu extra e foi pessoalmente entregá-lo a Pastore, em São Paulo, duas semanas mais tarde. Quando a reportagem da Folha entrou em contato com o sociólogo para confirmar a história, ele enviou pelo celular uma foto do troféu comemorativo com o seu nome gravado. “Guardo com muito carinho”, escreveu.

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