Caso uma nova legislação brasileira forçasse a Uber a contratar todos os seus motoristas, Dara Khosrowshahi, presidente do aplicativo de transporte, projeta que os negócios da empresa diminuiriam, e o preço das corridas subiria em até 60%. “Mas quero deixar claro que vamos continuar no Brasil”, disse o executivo de ascendência iraniana em entrevista à Folha nesta quinta-feira (19).
A passagem relâmpago de Khosrowshahi pelo país incluiu uma visita a Brasília, onde ele se encontrou com integrantes do governo para discutir o projeto de lei 152/2025, que propõe a regulamentação do trabalho por meio de aplicativos. A proposta prevê pagamento de uma remuneração mínima aos motoristas, Previdência Social, além da classificação dos aplicativos como prestadores de serviços, o que mudaria a relação de trabalho da Uber com mais de dois milhões de motoristas.
Mais de 85% dos brasileiros já usaram o Uber ao menos uma vez em alguma situação, maior percentual entre os mais de 70 países onde a empresa opera. O Brasil é também o país do mundo onde a empresa faz mais corridas. Já foram 17 bilhões de viagens desde que a operação estreou em 2014, com R$ 230 bilhões em receita gerada aos motoristas, segundo a empresa.
Como está a performance da operação da Uber no Brasil?
O Brasil é uma parte muito importante dos resultados que apresentamos no trimestre passado e também nos últimos anos. O Brasil tem sido uma máquina de crescimento. É o nosso maior país, maior que os Estados Unidos. Em termos de número de transações de viagens, é o nosso principal país quando se trata de mobilidade urbana. Está no topo da lista no mundo inteiro.
Uma das áreas de que mais nos orgulhamos é que abrimos um centro de tecnologia no Brasil, em São Paulo. Agora, estamos expandindo para o Rio, investindo mais de R$ 2 bilhões em tecnologia. Temos cerca de 500 engenheiros no país e vamos dobrar essa estrutura nos próximos anos. Eles desenham funcionalidades que são usadas no mundo todo.
Temos mais de 2 milhões de parceiros [motoristas] que ganham dinheiro conosco no Brasil, seja com quatro rodas ou duas rodas. E estimamos que mais de 85% da população brasileira já usou a Uber de alguma forma.
Os parlamentares brasileiros debatem regras para o trabalho por aplicativos. Qual é a posição da Uber sobre essa proposta?
Acreditamos que uma legislação abrangente que dê aos trabalhadores de aplicativos e aos nossos motoristas proteções e direitos, como a Previdência Social, por exemplo — achamos que deveria haver contribuição para o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], apoiamos isso. Quanto a um pagamento mínimo, nossos motoristas já ganham acima de um salário mínimo, não somos contra. Estamos em países que implementaram isso e, ao mesmo tempo, reconheceram que somos uma plataforma de tecnologia.
O que queremos que seja reconhecido é que somos uma plataforma tecnológica, não um provedor de serviços de transporte. Essas são algumas das discussões que estamos tendo.
Quando estive em Brasília na quarta-feira [18], eu me sentei para conversar com vários dos nossos motoristas. Minha equipe perguntou aos motoristas: por que vocês usam a Uber? E o principal motivo que cada um deles disse foi a flexibilidade.
O que ocorreria se o governo impusesse que esses trabalhadores precisam ser contratados?
Seria muito prejudicial para os trabalhadores e faria os preços subirem muito em todo o país, e o negócio diminuiria. Mas quero deixar claro que estamos aqui no Brasil e a Uber vai continuar no Brasil, e vamos seguir as leis e teremos uma relação construtiva com o governo, mesmo que discordemos. Este é um lar permanente para nós. Achamos que esse desfecho seria um erro gigantesco. Nossos motoristas não apoiam isso. Não há razão para voltar ao trabalho por carteira assinada. Esse era o modelo de trabalho de 50 anos atrás.
Quanto o preço poderia subir?
Com algumas das propostas que vimos, os preços poderiam aumentar 50% ou 60%, o que reduziria substancialmente o número de motoristas que poderiam estar na plataforma. Seria péssimo para os consumidores. Mas devo dizer que estou otimista de que encontraremos um caminho melhor.
A Uber teve dificuldades com a prefeitura de São Paulo por causa do serviço de mototáxi. A companhia espera reativá-lo?
Ainda veremos. Queremos garantir que tenhamos diálogo com o prefeito de São Paulo.
Temos veículos de duas rodas em muitos lugares do país. Eles oferecem um meio de transporte mais acessível para as pessoas, muitas vezes para ir e voltar do transporte público até uma estação de trem. É um dos nossos produtos mais populares.
Outra questão é que carros são muito caros no Brasil, e o financiamento é difícil de conseguir. As motos são mais acessíveis.
Estamos trabalhando com os bancos para que reconheçam o trabalho de Uber.
Pode nos dar pistas de como seria essa parceria com bancos?
Estamos olhando para dois fatores. Primeiro, daríamos aos bancos, com a permissão do motorista que está solicitando o empréstimo, acesso ao histórico de corridas e renda do motorista, assim como um registro de emprego —não é emprego, é um certificado de que eles estão usando a plataforma. Assim, o banco poderá ver a consistência dos ganhos daquele motorista. Depois, uma certa porcentagem dos ganhos do motorista com as corridas iria diretamente para pagar os juros, para que o empréstimo possa ser mais seguro para o banco. Desse modo, é possível reduzir as taxas de juros e tornar a compra de um carro mais acessível para o motorista.
Será mais seguro do que um crédito consignado. Esperamos que as taxas de juros sejam muito mais baixas. Não é algo em que a Uber está buscando lucrar, é algo que estamos buscando fazer para o benefício dos motoristas. Mais motoristas com carros próprios é bom para os negócios.
A Uber está investindo pesado em carros autônomos. Eles já são lucrativos ou ainda são uma aposta?
É um investimento. Qualquer produto novo que lançamos, à medida que buscamos expandir o produto e queremos garantir que ele seja acessível para todos, muitas vezes o lançamos com prejuízo. É o que se passa com as motos no Brasil. Perdemos dinheiro com motos no Brasil porque é muito importante para nós garantir que elas sejam acessíveis e também garantir que os motoristas das nossas motos estejam tendo uma boa renda.
Quando podemos esperar carros autônomos no Brasil?
No Brasil, não acredito que seja tão cedo. Daqui a 10 anos, haverá alguns robotáxis nas ruas. Mas avalio que serão uma pequena minoria das viagens no Brasil.
Quais são as barreiras?
As ruas do Brasil são únicas em termos de trânsito, e é preciso garantir que o robotáxi seja devidamente treinado para as ruas brasileiras, incluindo todas as leis de trânsito. Segurança de dados e privacidade é outra questão muito importante.
Você nasceu no Irã e deixou o país quando era muito jovem. Como você vê o conflito do Irã com os EUA?
Estou muito dividido sobre isso. Por um lado, acho que a perda de vidas no Irã é trágica. Há muita infraestrutura que está sendo atingida, e isso pode prejudicar vidas reais. Pessoas perdendo eletricidade, água quente, etc.
Por outro lado, acho que o regime islâmico que tem governado o país nos últimos 47, 48 anos, não tem servido ao povo iraniano. A cultura iraniana não é apenas sobre o Islã. O Islã é uma grande parte da cultura iraniana, mas essa é uma cultura que existia antes do Islã. Tem artes incríveis, tem talentos incríveis. O sistema educacional no Irã é muito forte. O povo iraniano e a cultura iraniana merecem fazer parte do mundo. Minha esperança é que haja alguma mudança de regime, mas que essa mudança possa acontecer de forma pacífica. Não sei como chegamos lá.
Quando foi a última vez que você esteve lá?
Eu nunca voltei. Saí do país quando tinha nove anos. Meu pai voltou. Meu avô estava muito doente, no leito de morte, e meu pai voltou para ficar com ele. Meu avô se recuperou, e conseguimos trazê-lo para os EUA, mas meu pai ficou preso no Irã por seis anos. Não o deixavam sair. Essa experiência nos condicionou a não voltar ao Irã enquanto esse regime estiver no poder. Eu realmente espero um dia poder voltar.
RAIO-X – DARA KHOSROWSHAHI, 56
Comanda a Uber, maior empresa do ramo de transporte por aplicativo no mundo. Antes, o executivo de origem iraniana dirigiu o Expedia, uma plataforma de viagens e turismo. Residente nos EUA desde os nove anos, graduou-se na Universidade Brown.