Os Correios registraram a adesão de 3.181 funcionários ao PDV (programa de demissão voluntária) aberto como parte do plano para recuperar as finanças da estatal. O número corresponde a apenas 32% da meta estipulada pela diretoria, que prevê medidas de compensação, como a redução do pagamento de horas extras.
A previsão inicial da empresa era obter a adesão de 10 mil empregados neste ano, o equivalente a 12,7% do atual quadro de pessoal da companhia, que tem 78,9 mil funcionários.
Outros 5.000 desligamentos são esperados para 2027, mas, para alcançar esse resultado, um novo PDV deve ser lançado no fim deste ano ou início do ano que vem.
O prazo inicial de adesão ao programa se encerrava em 31 de março, mas a diretoria dos Correios prorrogou até 7 de abril, na tentativa de atrair mais empregados. Cerca de um terço dos participantes ingressou no programa nas duas últimas semanas do prazo de adesão.
O PDV é um dos pilares do plano de reestruturação da companhia, o que foi a contrapartida para um sindicato formado pelos cinco maiores bancos do país aceitarem emprestar R$ 12 bilhões aos Correios para salvá-lo num momento de dificuldades financeiras. O empréstimo tem garantia da União, que honrará os pagamentos em caso de inadimplência da empresa.
Trata-se de uma operação de risco para todos os envolvidos, inclusive os membros do Tesouro Nacional e do Ministério da Fazenda, que atuaram na concessão da garantia. Eles estarão sujeitos ao escrutínio de órgãos de controle, caso a operação resulte em calote. Por isso, o andamento do plano de recuperação dos Correios é relevante.
A empresa projetou obter economia de R$ 1,4 bilhão com o PDV em 2027. Neste ano, o impacto seria nulo, dado que os Correios precisam desembolsar os incentivos financeiros oferecidos para que as pessoas façam a adesão.
Segundo interlocutores da empresa, a adesão dos empregados ao PDV deve render uma economia levemente acima dos R$ 500 milhões, pouco mais de um terço do previsto.
Por outro lado, a diretoria tem outras medidas engatilhadas para compensar a frustração do valor restante.
Há uma avaliação interna de que uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), pode render uma economia de aproximadamente R$ 500 milhões neste ano, com efeitos cumulativos para 2027.
O ministro suspendeu três cláusulas do acordo coletivo de trabalho que eram mais generosas do que os direitos garantidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Os benefícios haviam sido aprovados pelo TST (Tribunal Superior do Trabalho) em dissídio coletivo, a contragosto do comando da empresa.
As cláusulas suspensas garantiam gratificação de 70% nas férias (acima dos 33% assegurados pela CLT) e hora tripla aos finais de semana e feriados (um adicional de 200%, sendo que a legislação garante 100%). Também havia sido determinado um repasse extra de fim de ano, chamado “vale-peru”, além de maiores obrigações com o plano de saúde.
Segundo um representante da empresa, o plano de reestruturação não previa originalmente essa economia, uma vez que a proposta de acordo —rejeitada pelos empregados— mantinha alguns desses benefícios, como a gratificação de férias ampliada. Por isso, o ganho poderá compensar em parte a frustração do PDV, com a vantagem de que os efeitos serão sentidos já em 2026.
Além disso, a empresa tem a interpretação de que, por causa das restrições aplicáveis em ano eleitoral, o próximo acordo coletivo de trabalho, a ser negociado para vigorar a partir de 1º de agosto, não poderá resgatar benefícios derrubados pela decisão do STF. Seria como criar uma nova vantagem, algo que é vedado pela legislação.
Se essa visão prevalecer, isso ajudaria a blindar as contas dos Correios por mais algum tempo.
A empresa também tem adotado medidas internas de gestão, como a redução de horas extras.
Segundo duas pessoas que participam das discussões, a companhia detectou que empregados com baixos volumes de entregas durante a semana estavam fazendo horas extras nos finais de semana, o que é mais caro para a empresa. Os Correios chegavam a gastar R$ 10 milhões por mês apenas com essas horas extras.
A partir desse diagnóstico, a estatal implementou mudanças e adotou a produtividade como critério para autorização de horas extras. Apenas funcionários com alto volume de entregas durante a semana estarão habilitados a fazer horas extras aos sábados, por exemplo.
É um modelo que já existe em outros órgãos que trabalham com bonificações e pagamentos extras, como o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), no qual servidores e peritos só podem fazer análises adicionais, remuneradas pelo bônus, após atingirem determinado patamar de produtividade naquele mês. Essa exigência não existia nos Correios.
Com a mudança, segundo integrantes da estatal, o gasto com hora extra caiu a R$ 250 mil por semana, ou R$ 1 milhão por mês. Se esse quadro se mantiver daqui para frente, significará uma economia de R$ 9 milhões por mês.