Seu imóvel perdeu valor porque o vizinho vendeu o dele barato? Em tese, talvez. Na prática, você continua morando no mesmo lugar, usando os mesmos cômodos e vivendo a mesma rotina, ou seja, você releva a decisão de seu vizinho.
Curiosamente, no mercado financeiro, muita gente transforma oscilações passageiras em emergências permanentes.
Há uma explicação humana para isso. Buscamos segurança. Não sabemos enfrentar bem oscilações, pois traz a ansiedade da incerteza. Gostamos de respostas claras, caminhos previsíveis e recompensas lineares.
Queremos saber qual ativo vai subir, quando os juros vão cair, onde estará o dólar no fim do ano e qual será o melhor investimento do momento. Claro que é possível ter estimativas para tudo isso. Entretanto, há um problema simples: em investimentos, a única certeza é a incerteza.
O futuro não vem com calendário. Crises surgem sem convite, ciclos mudam antes do consenso e oportunidades aparecem onde poucos estavam olhando. Quando o investidor exige certezas de um ambiente construído sobre probabilidades, a frustração deixa de ser exceção e vira rotina.
Epiteto ensinava que a serenidade começa quando distinguimos o que depende de nós daquilo que não depende. Em finanças, a lição continua atual. Não controlamos eleições, guerras, inflação ou humor do mercado. Mas controlamos o quanto poupamos, como diversificamos, os custos que aceitamos pagar e a disciplina de seguir um plano coerente.
A modernidade elevou um sentimento dos indivíduos: a ansiedade. E boa parte da ansiedade moderna nasce do excesso de acompanhamento. Muitos investidores olham a rentabilidade todos os dias e julgam a estratégia em períodos não muito maiores que um mês. Fazem mudanças sucessivas não porque o plano piorou, mas porque a paciência acabou. É como desenterrar a semente semanalmente para verificar se a raiz cresceu.
Esse comportamento não é igual para todos os ativos do patrimônio. Em alguns ativos costumamos agir melhor. Como mencionei, quem compra um imóvel para morar, ou mesmo para investir, não pede nova avaliação a cada manhã ou mês.
Não coloca placa de venda porque o apartamento ao lado saiu por menos. Entende, intuitivamente, que preço momentâneo e valor de longo prazo podem caminhar separados por um tempo.
No mercado financeiro, essa sabedoria desaparece. Quedas passageiras parecem definitivas. Altas recentes parecem eternas. Manchetes viram ordens de compra ou venda. E o que deveria ser estratégia se transforma em reação.
Isso não significa ignorar riscos ou abandonar revisões. Significa reconhecer que revisar é diferente de se desesperar. E sobre tudo, que o prazo de maturação de cada investimento é diferente, pode ser longo e que oscilações são a regra. Ajustar a rota faz parte da viagem. Girar o volante a cada rajada de vento, não.
Os melhores investidores raramente vencem por prever o futuro com precisão. Vencem por aceitar que ele é imprevisível e, ainda assim, se preparar bem. Diversificam, mantêm liquidez adequada, respeitam o prazo e controlam o próprio comportamento.
O mercado costuma remunerar paciência com juros compostos e cobrar caro pela ansiedade. Talvez investir melhor não dependa de encontrar certezas. Dependa de conviver com dúvidas sem abandonar um plano sólido.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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